Premiado no exterior, 'Copa 181', de Dannon Lacerda, explora a solidão e o desejo no mítico bairro da Zona Sul, explorando de saunas gays a lojas de ferragens

Por RODRIGO FONSECA*

A travesti Kika (Silvero Pereira) encara os prazeres e os riscos da noite carioca em "Copa 181"

Eleito melhor longa-metragem no Festival de Maipu na Argentina e elogiado em mostras no México, Romênia e Brasil, “Copa 181”, um caleidoscópio de afetos na noite LGBTQ carioca, vai ganhar uma nova vitrine, aberta ao corpo ao corpo com espectadores da mais variadas tribos, a partir de amanhã, quando passa a integrar o menu de pratos principais das principais plataformas digitais da web: Itunes, Net Now, Google Play, Vivo Play e Look, distribuída pelo selo O2 Play.

É um caminho alternativo ao circuito exibidor convencional, que dissemina uma estética pautada pela ousadia, como a do diretor Dannon Lacerda, pelos canais da internet. No filme, Dannon faz uma trança com as emoções de diferentes personagens, entre eles a travesti Kika (Silvero Pereira), a partir da geopolítica de exclusões e solidões de Copacabana.

Na trama, Kika trabalha como faxineira até chegar a noite de sábado, quando se transforma em uma estrela, fervendo libidos na sauna Copa 181. Aos poucos, a presença de Kika afeta o cotidiano da cantora de ópera Eros (Simone Mazzer) e de seu companheiro, Taná (Carlos Takeshi), que passa os dias em uma loja de materiais de construção.

Incomunicabilidade, intolerância e interdições morais são dissecadas em “Copa 181”, a partir do trabalho cuidadoso de Dannon (realizador de curtas festejados como “Cine Centímetro”) na investigação de chagas existenciais. Na entrevista a seguir, o diretor fala de seu processo.

JORNAL DO BRASIL - Qual é o universo que a sua "Copa 181" busca retratar?

Dannon Lacerda: “Copa 181” busca retratar dois universos paralelos, sendo um deles marginal e obscuro para a maioria das pessoas. De um lado, ele mostra a Copacabana interior (distante da praia e dos clichês), destacando a rotina de um casal e sua solidão. Em contraponto, revela uma sauna gay cheia de vida, cores e música alegre.

De que maneira a solidão é o epicentro dessa sua Comédia Humana?

A solidão se revela em muitas facetas, na aparência inicial das personagens cotidianas, na repetição do trabalho de Taná na loja ou nos ensaios infrutíferos de Eros. No apartamento do casal, onde quase não se falam, os diálogos mais importantes ocorrem numa praça, em um banco que se assemelha metaforicamente a um divã, um local neutro. Na psicologia freudiana, Taná é a pulsão de morte enquanto Eros é pulsão de vida. Uma dialética que acompanha os dois mas sem ser explícita. Tá nas coisas que não são ditas.

O que Kika representa para o rol de personagens LGBTQ do nosso cinema e que tipo de heroísmo há nela?

Kika foi inspirada em personagem real, por sugestão do ator Silvero Pereira. Ele conheceu uma travesti faxineira de sauna gay que tinha o sonho de ser cantora. Sua trajetória no filme é humana e libertadora, pois, apesar da violência e do abuso sofridos, Kika se liberta do macho violento e opressor e se encaminha para a realização do seu sonho de ser cantora. Ela não é, entretanto, uma personagem maniqueísta, pois traduz dúvidas, incertezas comuns a todos e todas.

O quanto de realismo, de fantasia e de documento se costuram em sua Copa?

Várias passagens foram inspiradas em cenas reais que presenciamos durante quase dois anos de laboratórios. Entre elas, estão a festa de aniversário na sauna, o debate entre os boys que não se acham gays mesmo fazendo sexo com homens – pois, para boa parte deles, aquilo é profissão, pelo menos teoricamente. O meu método de cinema, meu processo, captura a realidade para ressignificá-la dentro dos propósitos do filme. Como disse Manoel de Barros: “De tudo o que digo, só 10% é falso. O resto, eu invento”. No caso, eu e os atores recriamos, reinventamos em laboratórios esses mundos reais.

*Roteirista e crítico de cinema