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Com as pernas no mundo

Exposição de Aline Matheus reúne diferentes situações de envolvendo o órgão de locomoção do corpo humano

Por Affonso Nunes

A escultora Aline Matheus apresenta a exposição "Pernas pra que te quero" no Centro Cultural da Justiça Federal

Nada expressa melhor a noção de movimento do ser humano do que as pernas. Elas nos mantêm de pé, nos fazem caminhar, correr, se entrelaçam no ato de amar ou, simplesmente, ficam para o ar quando queremos descansar. "Pernas pra que te quero" é o nome da exposição da escultora Aline Matheus, que acaba de abrir no Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia.

O projeto surgiu do aprofundamento das experiências vividas pela artista plástica na pesquisa, a partir de um único formato de pernas femininas em resina que aparecem em diversas situações ou bases formadas a partir de materiais como barro ferro, madeiras brutas de demolição e elementos da natureza, todos subvertidos de seus contextos originais.

"Essa história das pernas começou por acaso. Eu havia concluído um trabalho e sobrou uma forma com um par de pernas. Comecei a brincar com aquele molde e surgiram várias possibilidades. A maior sensação, acredito, é a criação de uma sensação de intimidade. Elas causam um tipo de estranhamento, mas despertam uma vontade de pegar. São humanas e geram essa proximidade", conta, comentando que no momento deseja ter pernas para se "manter de pé".

Além das 13 peças expostas, "Pernas pra que te quero" apresenta poemas que abordam a questão feminina. De autoria de Ilka Matheus, mãe de Aline, os versos foram gravados em chapas de ferro que sofreram propositalmente a ação do tempo. "Eu deixo as chapas no tempo para que elas enferrujem, o que vai de encontro a uma parte dos poemas", comenta.

Algumas peças, como as pernas que parecem jorrar de um tronco, datam de dois anos quando Aline iniciou os primeiros trabalhos deste ciclo. "De dezembro para cá, quando ficou acertado que eu faria esta exposição, produzi mais oito peças", conta.

Ao falar de seu processo de criação, a artista se autorrotula como uma artesã. "Tem esse processo longo. Depois de enformadas, todas as pernas foram pintadas com tinta óleo e acrílica, com uma paleta que remete aos tons da terra, que tem a ver com as nossas raízes, o que temos de mais profundo em cada um de nós". As pernas exibem identidade e marcas próprias tais como rachaduras ou pequenas feridas. Uma força expressiva para causar reações junto ao público, sejam elas quais forem. "Não existe arte se não houver algum tipo de interação", observa Aline, cuja formação passou pela Escola de Artes Visuais Parque Lage, Casa das Artes de Laranjeiras (também é atriz) e pela Universidade Santa Úrsula (é formada em Direito). Já expôs em cidades americanas como Nova York e Las Vegas. No Brasil, apresentou seus trabalhos em Brasília, São Paulo, Paraty e Niterói.