Macedônia na caça ao Urso de Ouro

'Deus existe, o nome Dela é Petrunya' aborda empoderamento feminino e igualdade de gêneros

Por RODRIGO FONSECA*

Petrunya, vivida por Petrunia Nusheva,encara a intolerância de um padre ortodoxo em longa da Macedônia

De olhos voltados para cineastas de carreira já estabelecida como François Ozon, Agnieszka Holland e Fatih Akin, todos na disputa pelo Urso de Ouro, a Berlinale 2019, castigada pelo frio vento germânico, amanheceu no domingo sob o sol da surpresa, diante de um manifesto em prol da afirmação feminina vinda da Macedônia. A tradução de seu título, "Deus existe, o nome Dela é Petrunya" ("Gospod postoi, imeto i'e Petrunija", no original), sugere mais do que uma provocação: o fundamentalismo religioso é um alvo da diretora Teona Strugar Mitevska, uma da sete mulheres no time de 17 realizadores em concurso este ano. O sexismo é sua presa mais alvejada, pois ela questiona assédio sexual, violência masculina e desigualdade salarial, além de atacar a gordofobia. Tudo isso ao narrar o ataque de conservadores a uma historiadora desempregada, Petrunya (Zorica Nusheva) que, sem querer, salva das águas de um rio uma cruz da Igreja Ortodoxa em que só homens poderiam tocar.

"Tradições precisam ser modificadas quando elas representam um atraso histórico que nos prende a práticas da Idade Média", disse Teona, realizadora eslava de 44 anos responsável por filmes premiados como "Veta" (2001) e "When the day had no name" (2017). "A solidariedade é a via de ação que torna as mulheres mais fortes na luta contra a violência de gênero.

Desde sua abertura, o Festival de Berlim vem dedicando sua 69ª edição à militância em prol de causas do feminino. E a maioria delas está sintetizada em "God exists, Her name é Petrunya", que se impõe não apenas por posicionamento ético, mas por sua potência narrativa (na forma de finíssima ironia). Zorica é a candidata com mais fôlego para ganhar o Urso de Prata de melhor interpretação, até agora. E o filme em si é visto como o favorito ao troféu principal, a ser decidido por júri presidido pela atriz Juliette Binoche.

"É importante que se fale de condições iguais para mulheres e homens, mas também temos que entender como as religiões se impõe", diz Teona, que escalou sua irmã, Labina Mitevska, para um dos papéis centrais do longa: uma repórter de TV que ajuda a protagonista a driblar a violência masculina e a opressão religiosa. "Em territórios como a Macedônia, onde a imprensa viveu anos sem liberdade, é vital se falar da relevância moral do bom jornalismo", diz Labina.

Outro longa que não sai da boca da Berlinale é "Öndög", dirigida pelo chinês Wang Quan'na, sobre um policial que vigia um cadáver de mulher encontrado em um deserto.

Nesta segunda, a Berlinale recebe um dos mais fortes candidatos ao Oscar, o cineasta americano Adam McKay, acompanhado por Christian Bale, para a première alemã de "Vice". Bale ganhou o Globo de Ouro por seu desempenho como o vice-presidente de George W. Bush, Dick Chenney.