Tempo de espera: confira a crítica de 'Vergel'

Por Frank Carbone

Camila Morgado em uma das camadas de sua personagem, em "Vergel"

A diretora Kris Niklison passou oito anos da sua vida envolvida com 'Vergel', coprodução entre Brasil e Argentina, que reflete um período de luto enfrentado pela própria autora e recriado na tela por Camila Morgado, em roteiro ficcional de base emocional. Uma mulher brasileira, sem nome, enfrenta o impacto da viuvez durante as férias com o marido em solo argentino. O filme investiga a longa espera da mesma para conseguir voltar para casa com o corpo do companheiro, enquanto se embrenha pela solidão e o desamparo a distância, tendo uma casa por testemunha.

Aos poucos, essa mulher começa a interagir com a vida remanescente a seu redor, a varanda repleta de plantas do espaço alugado, a dona do imóvel que vem regar o jardim suspenso que insiste em crescer e mostrar sobrevivência, incitando a protagonista a seguir com a existência apesar da dor. Como um James Stewart moderno, sua janela passa a refletir a efervescência vital que transborda à sua frente, e essa mesma vida vem lhe soprar no ouvido pedindo dela coragem para viver uma nova história... talvez de amor. Apesar do ritmo lento quase numa espécie de contemplação do luto por muitas vezes, a produção mostra que poderia, sim, ir além da estrutura de curta-metragem aparente, convidando o espectador a uma viagem sensorial de uma mulher a descobrir novas possibilidades de ser e estar. Com bela entrega de Camila e interação potente com Maricel Alvarez, o filme de Kris acaba por se mostrar uma experiência de imersão a trafegar entre a profundidade da melancolia e a redescoberta do desejo. 

*Membro da ACCRJ

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VERGEL: ** (Regular)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom