Van Gogh, por dentro e por fora: confira crítica de 'No portal da eternidade'

Por Frank Carbone

Trama está centralizada nos temores dos bonecos

Julian Schnabel é um diretor/autor/artista plástico propenso a desconstruir biografias através do seu olhar sem clichês, tanto para a narrativa quanto para a mise en scène em suas obras, que já lhe levou para os holofotes com "O escafandro e a borboleta", longa de 12 anos atrás, vencedor de prêmio em Cannes e indicado ao Oscar, que adequou sua imagética à estrutura de seu retratado, o jornalista Jean Bauby, que sofreu um derrame e teve sua existência gradativamente paralisada. Schnabel flerta com a proposta apresentada lá na abertura de seu novo longa, para em seguida apontar caminhos diferentes esteticamente.

O personagem da vez é o gênio holandês Vincent Van Gogh, que já rendeu inúmeras produções, mas que dessa vez propõe enxergar o interior do pintor e recriar seu preciosismo na tela, em paralelo. Através da luz do francês Benoît Delhomme (que já trabalhou com mestres como Tsai Ming-Liang e Tran Ahn Hung), o diretor passeia pela obra de Van Gogh em texturas, cores e potência, em trabalho visual inspirado e delicado ao mesmo tempo. Mas seria "fácil" reproduzir o olhar de um mestre através da fotografia: Schnabel vai além e narra os próprios pensamentos de um dos pais da arte moderna.

Para isso, conta com roteiro assinado por ele, Louise Kugelberg e Jean-Claude Carriére, o homem por trás de clássicos como "A bela da tarde" e "O discreto charme da burguesia", que conta com inspiradas reflexões ditas por Willem Dafoe, merecidamente indicado ao Oscar por esse momento, além de ganhar o prêmio de ator em Veneza. Da união de um roteiro minucioso, onde Van Gogh analisa sua própria vida e sua obra, ao talento descomunal de Dafoe, nasce um filme que só peca na periferia de sua narrativa ao apenas pincelar participações em sua vida, sem dedicar muita profundidade; na centralidade, reina soberana a arte e a personalidade de um dos maiores de todos os tempos.

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NO PORTAL DA ETERNIDADE: *** (Bom)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom