Entre a bancarrota e o crescimento, setor de livros viveu momentos distintos em 2018
‘Oh! Bendito o que semeia/Livros à mancheia/E Bendito o que semeia/Livros à mancheia/E manda o povo pensar!/O livro, caindo n’alma/É germe – que faz a palma,/É chuva – que faz o mar!” Raras as pessoas que não conhecem essas magníficas palavras de Castro Alves, em seu poema “Espumas Flutuantes”. Por isso deu certa dor a todos nós a “Carta de amor aos livros” do editor Luiz Schwarcz anunciando, em novembro, uma crise sem precedentes no mercado editorial, que o levara a demitir 25 pessoas, na Companhia das Letras. Foi depois da denúncia lamento de Schwarcz que o Sindicato Nacional das Editoras de Livros (SNEL) resolveu incentivar uma campanha para que os livros fossem ofertados no Natal como o melhor presente.
Mas estará realmente o mercado editorial brasileiro em crise? Dados do Painel de Vendas de Livros no Brasil do SNEL desmentem a tese. Em outubro de 2018, em relação ao mesmo mês do ano anterior, o volume de vendas do setor havia crescido 3,65%, o que não acontecia há quatro anos. Passou de 3, 421 milhões de livros para 3, 546. O faturamento cresceu 5%, de R$ 130, 5 milhões para R$ 137,5 milhões. “O livro vai muito bem e o mercado começa a ficar melhor”, diz Thereza Rocque da Motta, dona da pequena Ibis Libris, que realiza o sonho de muitos poetas editando suas obras líricas. Em 2018, Thereza produziu 30 livros. Em 2017, devido à recessão e à falta de liquidez provocada pelo impeachment e à perseguição aos corruptos – “circulou menos dinheiro no país” - a produção de sua pequena empresa havia atingido apenas dez livros, quando em bons tempos chegou 40.
Provando que as coisas começam realmente a melhorar, ela informa que neste início de ano ela já tem 12 livros engatilhados para serem produzidos. Um fator que havia abalado o mercado, explica, além da recessão e o impasse político, foi o fato de o governo ter deixado totalmente de comprar livros: “A Manati, por exemplo, foi lima das empresas atingidas quando o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) deixou de existir. O governo comprava metade de toda a produção de livros no Brasil, sobretudo didáticos e paradidáticos, ajudando muito aos editores. De repente esta fonte de recursos acabou e as editoras que viviam das compras oficiais tiveram que fechar as portas”.
Ainda no âmbito dos paradoxos, qualquer comprador de livro, ao entrar numa boa livraria, dá de cara com estantes abarrotadas de novos lançamentos, bancadas ou prateleiras lindíssimas, extremamente coloridas. A visão é de deixar o cliente tonto ou com água na boca do ponto de vista intelectual, tamanha é a vontade de levar os belíssimos tomos para casa. Essencial, nestas horas, segurar o cartão de crédito e não cometer loucuras.
O que aconteceu, portanto, que levou Luiz Schwarcz a escrever sua agora icônica carta? Thereza diz que, no que se refere aos tempos mais recentes, foi um problema praticamente restrito à Saraiva e à Cultura, imensas redes que se viram obrigadas, devido às suas colossais dívidas, a pedirem renegociação judicial.
“Foi uma questão de má gestão. As dívidas da Saraiva junto aos editores chegaram à casa dos R$ 600 milhões e as da Cultura se aproximaram dos R$ 400 milhões. Deixaram de pagar aos editores. Fugi deste abismo financeiro procurando outra forma de atuação: prefiro os pequenos livreiros e distribuidores. Os livreiros menores compram à vista ou consignam livros (consignação é o sistema em que a livraria só paga ao editor quando vende). Eles são um ótimo nicho. Trabalham diretamente com conosco, o que mantém o mercado editorial sempre ativo, permitindo que se faça novos lançamentos – explica a diretora da Ibis Libris.
Quem não se precaveu contra o “buraco” financeiro gerado por essas duas grandes redes foi atingido. Entre as editoras da Liga Brasileira de Editoras (a Libre), que reúne casas editoriais de menor porte, uma das estão sofrendo mais com o calote, informa Thereza, é a Autêntica. Saraiva e Cultura devem à empresa administrada por Maria Amélia Mello cerca de R$ 800 mil, e ao grupo todo da Libre, no qual se destacam Contraponto, Ouro sobre Azul Capivara, Contracapa, entre outras pequenas editoras, quase R$ 3 milhões. Tendo fugido destas grandes livrarias, procurado outros nichos para escoar seus livros, como informou, Thereza ficou com crédito a receber de apenas R$ 600.
Mas não apenas a Saraiva e a Cultura deixaram de pagar os livros vendidos em consignação ou pagam mal. A dona da Ibis Libris diz ter problemas sérios com a Blooks e a Argumento. Atrasam os pagamentos. Seguram o resultado das vendas. A Blooks, por exemplo, só paga ao livreiro quando vende R$ 100 ao mês. Se a venda totalizou R$ 99, não paga. E não passa o valor para o mês seguinte. “Não acredito que vendeu tão pouco. Meus livros esgotam. Mesmo sendo poesia, que não vende tão bem. Estou sempre tendo que reimprimi-los”.
Travessa, milagrosa não só no Natal
Rui Campos é um dos mais antigos sócios da Travessa, livraria que conta com um sistema de gestão inovador administrado por vários parceiros. Atualmente, diz ele, são em número de oito as pessoas que cuidam das sete lojas do Rio, além de uma em Ribeiro Preto e outra no Instituto Moreira Salles de São Paulo. Sem falar que está sendo criada uma nova livraria na capital paulista e que este ano a empresa vai dar um passo ainda mais largo, ao abrir uma loja em Lisboa.
O misterioso segredo, no entanto, é um segredo de polichinelo: a boa administração. De acordo com Rui, “a Travessa é uma pequena livraria que cresceu com pessoas com vocação para ‘livreiro”, que foram se juntando e, passo a passo, foi crescendo sempre, mas mantendo as mesmas caraterísticas. Um dos seus grandes trunfos foi desenvolver sistemas de gerenciamento eficientes, graças ao envolvimento que seus sócios sempre tiveram com o negócio. Em 2019 apresentaremos às editoras um modelo de cogestão de estoques que deverá ser uma excelente ferramenta para otimizar nossas relações com o mercado”. Ou seja, o que já era bom, melhor há de ficar.
Segundo ele, Schwarcz fez muito bem ao pôr a boca no trombone: “A manifestação do editor Luiz Schwarcz foi extremamente feliz quanto aos resultados. Junto com outras campanhas, como o ‘Desafio’, lançado pelo também editor Marcos Pereira (presidente do SNEL e diretor da Sextante, segunda maior editora do país), gerou uma onda pro-leitura muito simpática e importante para todos os envolvidos no mundo do livros”.
Rui acrescenta ainda que, se houve crise, ela foi realmente pontual ou localizada, tendo a ver com alguns casos específicos de modelo de gestão. No caso da Travessa, assim como ocorreu com toda a economia brasileira, nos últimos anos houve uma retração nos resultados devido aos efeitos de desastre econômico durante a gestão Dilma/Mantega. Ágil, a Travessa soube se adaptar à fase econômica ruim, tanto que conseguiu superar os piores momentos e não teve queda nas vendas. “Passamos três anos sem crescimento, mas também sem aumento significativo nas despesas. Em 2018 voltamos e crescer e nosso Natal foi excelente”.
Mas afinal de contas, o que aconteceu com a Cultura, antes tão bem administrada por Pedro Herz, tanto que chegou a comprar a rede da FNAC? Desde os tempos de Eva Herz, mãe de Pedro, que começou a vender livros dentro da própria casa, a Cultura só crescia. Rui Campos responde: “Sempre tivemos a Livraria Cultura como sinônimo de eficiência e boa gestão. Acredito que, mais recentemente, os administradores tenham buscado um modelo de crescimento acelerado à custa de forte endividamento e aposta nos meios eletrônicos de comércio e leitura. Em entrevistas (disponíveis na web), os filhos de Pedro, Sergio e Flavio, afirmam ter renegado o modelo de livraria que tão bem representavam. E encontraram fácil financiamento. Bancos de fomento brasileiro (entre eles o BNDES) abriram os cofres para tudo o que enxergavam como ‘o futuro digital da leitura’. Mas isso não prosperou. A sociedade manifestou sua opção pelo livro impresso e suas livrarias.
Crescimento acelerado e perda de foco
Quanto à Saraiva, Rui Campos também tem uma explicação: “A Saraiva, arrisco dizer, também perdeu o foco. Sempre fez um ótimo trabalho atendendo ‘a base da pirâmide’. Passou a apostar em eletrônicos (chegou a fabricar um e-reader!), crescimento acelerado e em lojas para um público que não era o que sabia atender”. Deu no que deu.
Enfim, tudo errado. Mas não é o modelo de consignação que está errado, muito pelo contrário: “Consignação bem administrada é um excelente negócio para o editor e para a livraria. Na minha experiência como editor (Editora Aeroplano) tudo o que queríamos era colocar nossos livros nas ‘ boas casas do ramo’. Queríamos ter nosso estoque ao alcance do público e não guardado em depósitos. Sempre nos dirigíamos às livrarias com o pedido: ‘por favor, aceitem nossos livros em consignação!”.
Thereza Rocque da Motta faz algumas observações ainda sobre a quebra da Cultura, que fecharia algumas lojas para quitar dívidas e acabaria por perder as livrarias FNAC compradas por Pedro Herz. Segundo ela, foi um grande erro a empresa trabalhar em conjunto com a Companhia de Letras, ou seja, a Companhia de Schwarcz ficou dentro da Cultura na livraria do Conjunto Nacional, a primeira grande loja aberta por Eva Herz “na rua” e que seria mantida com tanto sucesso por seu filho Pedro. A atividade de livreiro e editor, diz ela, são coisas díspares, não devem ser confundidas. E Thereza pode falar sobre isso de cátedra, porque tentou ter livraria e não deu certo. “A Cultura pegava os livros da Companhia com mão grande, sem pagar nada”.
Outro erro, explica ela, foi ter um depósito em Guarulhos, muito longe das livrarias, que passou a ser objeto de roubos. “Meus livros eram roubados lá. Sumiam. E o pior é que quando havia um lançamento no centro de São Paulo levavam os livros restantes para lá, ao invés de deixá-los na livraria, onde poderiam ser recolhidos mais facilmente. Quando surgiu a crise e começaram a não me pagar, eu ia logo ao papa. Falava com o Flávio Herz primeiro. Se não me pagava, falava com o Sergio, o irmão presidente, que resolvia logo a questão. Sabe que com um boleto de cobrança podemos levar uma livraria à falência? Só não fazemos isso porque feriria as regras de mercado, o acordo de cavalheiros. Ficamos a esperar o pagamento, sem recorrer à Justiça. Sem acionar ninguém”.
Não há mais perspectiva de o livro impresso vir a ser substituído um dia por livros digitais. Para Rui, é questão superada. O livro eletrônico sempre manterá uma fatia do mercado, mas muito pequena. Agora, se o índice per capita de leitura no Brasil é baixo, ficando em média em 2, 43 livros por ano (Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 4ª edição, divulgada em 2017), é importante ressaltar que já foi pior, não chegando a 1 livro per capita, incluídos os didáticos. O brasileiro quase que tem uma veneração religiosa pela invenção de Gutenberg. Sabe que os livros e o estudo é que podem ajudá-lo a melhorar socialmente. Mas livro é caro, já que embute o custo de impressão, o imposto pago ao governo, o percentual pago ao autor e à livraria. Por outro lado, existem várias circunstâncias que restringem o hábito de leitura, como a desigualdade social, o analfabetismo, a falta de estrutura familiar e educacional.
Hábito de leitura é costume que se adquire quando criança. Isto é, para incentivar a criança a ler é preciso um ambiente cultural, de leitura, dentro de casa e, posteriormente, na escola. Entre os principais fatores que estimulam a leitura e a compra de livros, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou os seguintes: gosto pela leitura (25%); atualização cultural (19%); distração (15%); motivos religiosos (11%); crescimento pessoal (10%); exigência escolar (7%) e atualização profissional ou exigência do trabalho (7%). Todos estes fatores fazem com que as livrarias se mantenham abertas.
“Livrarias criam leitores. Quanto mais livrarias e bibliotecas, mais leitores, mais editores, mais autores. Apoiar e incentivar o surgimento de livrarias e bibliotecas deveria ser ‘estratégia de segurança nacional’. Nada prospera sem cultura e educação. Entregar nosso mercado a estratégias de empresas estrangeiras oportunistas, que acenam com descontos fictícios e que não pagam 10% dos impostos pagos pelas livrarias brasileiras, é péssima prática”, diz Rui.
É óbvio que estava se referindo à livraria virtual Amazon, outra das poucas distribuidoras de livros que paga em dia aos editores brasileiros. A gigante tem suas prerrogativas, mas as livrarias brasileiras têm acesso ao crédito do BNDES e ela não. O importante é que continuemos a ler em 2019. E a comprar livros. Não importa que seja um bom romance, um informativa obra de não ficção ou um livro de autoajuda, como é o caso de “A Cabana”, que vendeu 20 milhões de exemplares desde que foi lançado em 2007. Comprar autoajuda também faz com que o mercado editorial brasileiro sobreviva. O leitor pouco exigente acaba adquirindo hábito de leitura, cultura e bom gosto. E só dar tempo ao tempo.
*Jornalista e escritora
