Crítica - Barão Vermelho: Jogando em casa, é goleada certa
Qual a banda brasileira que, em sã consciência, nunca sonhou em se apresentar no Circo Voador? Nascido junto às areias do Arpoador e consolidado no coração da Lapa, o espaço catapultou artistas das mais variadas tendências, mas foi lá que a chamada geração do BRock nasceu literalmente. E se há alguns grupos, uma pequena elite, que podem proclamar que quando lá tocam estão jogando em casa. Assim é o Barão Vermelho.
Há 36 anos a banda com o apelido de um aviador alemão fez a lona decolar. O público delirava com as performances lendárias deste forjado para tocar ao vivo e... quanto mais gente, melhor. A combinação era mortal: a poesia e vocais viscerais de Cazuza, a guitarra ácida mas sem firulas de Frejat, o baixo pulsante de Dé, os teclados de linhas sinuosas de Maurício Barros e a velocidade com que Guto Goffi atacava a bateria. Rock na veia.
Muitas pedras rolaram na história do Barão. Cazuza foi para carreira solo. Seu lirismo não cabia mais apenas na linguagem rock e transcendeu para a MPB . Coube a Frejat assumir os vocais numa fase de entra-e-sai de integrantes, mas o Barão conquistava plateias e atravessava gerações. E ainda houve a morte precoce do antigo vocalista e letrista.
E quando parecia voar em céu de brigadeiro, um novo baque. Frejat decidiu dar um tempo, deixando os colegas banda numa encruzilhada. Parar tudo ou novo recomeço? A solução foi chamar Rodrigo Nogueira, da banda Suricato. E, antes de deslanchar qualquer projeto autoral com a nova formação, o grupo caiu na estrada.
Neste ponto chegamos à noite de sexta-feira em que o novo Barão formado por Suricato (voz e guitarra), Fernando Magalhães (guitarra), Maurício Barros, Goffi e Marcio Alencar (baixo) reviveram os melhores momentos da banda num Circo Voador lotado e ansioso por cantar os grandes hits da banda.
À exceção do single “A solidão te engole vivo”, a primeira autoral da nova fase, todas as outras 21 músicas foram cantadas a plenos pulmões por mais de duas horas de concerto. O fator campo fez (e sempre) fará a diferença em se tratando do Barão Vermelho.
Suricato está totalmente à vontade com o repertório. Tem um belo timbre pop, mas explora a dramaticidade em “Down em mim” ou explosão catártica de “Pro dia nascer feliz”. Mostrou entrosamento com Magalhães, o excelente guitarrista que chegou ao Barão ajudar Frejat quando este admitiu que será difícil para ele cantar e tocar com a mesma excelência. Maurício agora compõe mais do que antes e ainda assume um vocal debochado em “Cuidado” e “Malandragem dá um tempo”. A cozinha formada pelo Alencar e Goffi está afiadíssima. O novo Barão é, na verdade, o Barão de sempre com grandes canções, riffs reconhecíveis de cara e uma banda coesa onde todos transbordam enorme felicidade no palco. A banda, que já foi apelidada de Rolling Stones brasileiros sabe que tudo “it’s only rock and roll”. E nós gostamos.
