Literatura: A poeta que tem o dom da arte

Por Cecilia Costa*

Fragilidades

A história de vida de Dirce de Assis Cavalcanti, que está com 86 anos, é uma história de coragem. Talvez outra mulher não tivesse sobrevivido a tantos sofrimentos. Seu pai era Dilermando de Assis, o jovem e belo amante de Anna de Assis, que, apesar de ter matado Euclides da Cunha e depois seu filho, Quidinho, em duros enfrentamentos a revólver que não o levariam à prisão, já que apenas se defendera após ter sofrido vários tiros, mesmo assim ainda é lembrado como “o assassino” do autor de “Os Sertões”. O que entristece muito a filha, que sabe que a pecha é injusta. Legítima defesa é legítima defesa.

Mas os percalços ou pedras no meio do caminho vão além da famosa Tragédia da Piedade. Dirce perdeu um filho, Octávio, morto em acidente de carro, e depois a nora. Com isso, teve que criar os dois netos, uma moça e um rapaz. O que não foi problema para ela, avó amorosa. O neto, porém, ao mergulhar de forma numa piscina, ficaria paraplégico. E hoje está numa cadeira de rodas. Esse acidente, se não me falha a memória, foi muito próximo do aniversário de Dirce, um 1º de abril. Sei disso porque o natalício dela sempre ocorre um dia após o meu, que cai em 31 de março.

Fora “Os Sertões”, livro que é considerado um dos marcos fundamentais da brasilidade, o que tudo isso tem a ver com literatura e arte? Tem e muito. Dirce, além de contar com o amor apaixonado do acadêmico Geraldo de Holanda Cavalcanti, embaixador e autor de obras premiadas, expressa-se artisticamente sem parar, como se a Arte fosse sua única maneira de resistir, galhardamente, frente a tantos embates emocionais. Ela esculpe mulheres, fazendo com que muitas delas flutuem no ar, como se fossem dançarinas ou leves ninfas (como escultora, assina-se Daja); pinta imensos painéis cheios de cor e escreve prosa e poesia.

Seu livro “O pai” é imperdível. Deveria ser lido por todas as pessoas que queiram entender melhor quem foi Dilermando de Assis e dimensionar a convulsão interna que Dirce vivenciou ao tomar ciência no colégio da história que tanto impactara sua família e a magoaria ao longo da adolescência e vida adulta, já que o pai e a mãe Marieta haviam decidido deixá-la afastada dos fatos ocorridos na Estrada da Santa Cruz. Ela só saberia os detalhes da tragédia lá pelos 17 anos, vasculhando documentos no escritório de Dilermando. Outro livro em prosa muito bom é “O velho Chico ou a vida é amável”, sobre uma viagem às margens do rio São Francisco. E há ainda um mais recente sobre a viagem à China, nos tempos em que Geraldo ainda se encontrava na ativa como diplomata.

Quanto à poesia, acho que já escreveu uns cinco livros, entre eles “A pele das palavras”, “O livro dos mistérios” e “Em carne viva”. Fui a alguns dos lançamentos. No início deste mês de dezembro, acaba de sair mais um com o selo da Ibis Livris, intitulado “Fragilidades”. Apesar de que de frágil Dirce não tem nada. Sua aparência engana. O corpo magro, branco, diáfano, os olhos azuis muito claros, os cabelos que já foram louros e hoje em dia são brancos, escondem uma mulher de fibra, que não se verga facilmente sob a dança dos ventos e a inclemência das tempestades. Mesmo que esteja sofrendo dores horríveis, devido a seus crônicos problemas de coluna, Dirce mantém o doce sorriso no rosto. E recebe seus amigos, em sua casa e nos lançamentos de seus livros, com muito carinho e o olhar tranquilo. Ter a amizade de Dirce é uma dádiva...

Tempo, Deus e amor pela vida

Sempre leio os livros de poesia desta fada iluminada com imenso prazer. Porque ela sempre me surpreende, me faz pensar. Ou seja, leio um poema ou dois e paro a leitura, deixando meu pensamento vagar na luz de sua sabedoria. “Fragilidades” tem uma curiosidade: Dirce se propôs a escrever 365 poemas, um para cada dia do ano. Os que considerasse ruins ou impublicáveis iriam para o lixo. Sua seleção deve ter sido bem criteriosa. Ao todo ficaram 181 poemas. De qual deles gosto mais? Não saberia dizer. Mas como leitora tenho algumas predileções. Creio que outro leitor teria as suas próprias, já que as sensibilidades e histórias pessoais são diferentes.

Em seus poemas enxutos, de extrema clareza e simplicidade, Dirce fala, entre outras coisas, de amor, precariedade da vida, a inexorável passagem do tempo, velhice, pecado, quedas – ela sofre muitas quedas, machucando-se seriamente – falta de fé em Deus e proximidade da morte. Já que, como toda artista, tem consciência de que imortal só poderá ser nas esculturas e na literatura, pois a vida física, a dos sentidos, com todas as suas alegrias, paixões, agonias e tormentos, um dia fatalmente a abandonará. Às vezes confessa que tem medo do fim. Em outras se diz disposta a enfrentar o irremediável, pacificamente.

Cada poema tem um número, referente ao dia em que foi concebido. No poema intitulado “Dia Um”, um dos maiores do livro, Dirce conversa com a atriz e escritora Maria Ribeiro, ressaltando os pontos que têm em comum. Através deste diálogo, nos fornece uma poética e um autorretrato, explicando o que mais motiva sua poesia: indagações filosóficas sobre o significado da vida e da morte. Eis o início do texto: “Você escreve assim,/Maria Ribeiro,/frases bem curtas,/inacabadas quase,/ bem como eu gosto.//Frases perguntas,/frases respostas/ e pausas dramáticas/ da cor preferida/ do silêncio: o amarelo”. Mais um trecho: “Tenho ainda/todos os sisos/que nunca arranquei/ (porque nunca nasceram.//Talvez, por isso, me falte juízo.)/ Como eu, você resolveu/vestir seus melhores/vestidos em casa/ Já não tenho onde ir/ Mas posso ficar uma hora/longe, pensando na vida/ sonhando acordada./Olhando os pombos, a arrulhar nas janelas.”

O Dia Três é dedicado ao tempo e a um enigma que também poderia ser da Esfinge de Tebas: “O que é o que é,/que começa com um grito/um choro aflito/e se acaba num sono/ com as mãos cruzadas?// Entre um e outro gesto/o tempo se alonga/ou se apequena/sem que se chegue a saber/o que se é.//Ou se gostaria de ser.” Às vezes Dirce escreve na forma de haicais, ou seja, poemas curtíssimos, com uma ou duas estrofes. É o caso do Dia Quatro: “Mulheres/que enlouquecem/por falta de ternura//Seus dias se gastam perdidos/às colheradas,/no lixo das cozinhas.”.

Dirce fala muito sobre sofrimento e a coragem de enfrentá-lo. É o tema, por exemplo, do Dia Onze: “Palavras esquecidas/há tanto tempo/não pronunciadas//Um amor bastante para a vida./Comove/ Há os que se perdem /no caminho.//A comoção do absurdo/que nos cai em cima/quando menos se espera.//O absurdo da comoção/fora de hora. Onde a ponte/ que nos leve a algum lugar?//Longe dessa tristeza/ sem remissão,/longe das fontes insaciáveis?//De olhos fechados se vê/ com mais clareza/ nas horas noturnas, profundas.//Quando a indiferença dói mais/ do que a aspereza cotidiana.// Não importa, não vou fugir/ do sofrimento: ainda é a melhor/maneira de entender a alegria.”

Dia Treze é um poema muito lindo de saudades do pai: “Assalta-me hoje/uma saudade profunda/ de meu pai//Sinto-o aqui/quase presente/tão palpável e vivo//que me vem o desejo/de sentar-me no seu colo/ como fazia quando menina.//Quero encostar a cabeça/no seu ombro, num carinho/e ouvi-lo contar uma história, /de que, já adormecida/ não consiga nunca/ ouvir o fim.”. Temos depois um haicai, o Dia Catorze: “Só assim se vive:/acreditando ser/ sensato o desejo/ do impossível”.

No Dia Dezoito, ela fala com muita sabedoria sobre a imaginação: “Borboletas se agitam/no meu estômago,/batem asas, soltam pó./Sinto o veneno do medo.//Medo de voar./De correr por aí/ e desembestar sem chão/debaixo dos pés.//A pedra não voa/ porque não quer./Não é por não ter asas.//Eu também não as tenho/e vivo de voo em voo:/Preciso é ter imaginação. “Dia Vinte e Dois é sobre o fim: “Não preciso ser profeta/ para dizer o que traz/o futuro.//Trocar os êxtases da vida/ pela consciência absoluta/ de que chegou o fim”.

Já no Dia Vinte e Três estão presentes o fim e o questionamento de Deus: “Se não existes,/por que lembrar-te/por que querer-te/por que sonhar-te?//É nas provas da existência que os sonhos vêm/mais que nas glórias/Jamais no fim”. E Dirce volta a mencionar Deus e sua falta de fé no poema Dia Trinta e Três: “Adonai, Elohim, Yaweh/tantas tribos, tantos nomes/ para o mesmo Senhor Deus,/ o Deus dos Exércitos.// que criou o homem para sua glória/o homem, pouco menos que um deus,/ para a glória de Deus/ e o homem criou Cronos, Zeus//e o Deus que também é Alá. /O mesmo Deus, trindade e uno, por que fanáticos matam e morrem.//O Deus em que não acredito mais.”

Se Dirce não acredita em Deus, ela acredita no amor. Sobretudo o amor que nutre pelo marido Geraldo Holanda Cavalcanti, como revela no poema Dia Trinta e Quatro: “E a luz me veio/total e absoluta,/dos teus olhos/cegando-me,//recriando-me outra: a que sou hoje,/E a um teu gesto/abriu-se o espaço.//Para lá eu fui, /para o chão/em que pisavas,/atapetado de grama//e de flores. Ali me deixei/plantar, ali criei raízes./Há cinquenta e cinco anos/vivemos entremeados”. Também é um canto de amor para Geraldo o poema Dia Sessenta: “Vou te olhar, fixamente,/nos olhos, de tal forma/que ficarás constrangido/e me olharás também.//E aí lerás todo o sentimento/que no fundo de mim escondo./A alegria de ver-te, a vontade maior, necessidade mesmo,//de tocar-te, mesmo depois/de tantos anos. Não sei como/ mantivemos essa chama acesa.//E conseguimos isso, mesmo quando/parecia extinguir-se, quase se apagando. Não adianta, meu bem, nós nos amamos”.

Também é sobre o amor duradouro o poema Sessenta e Três: “Será que ainda se pode falar/ de amor, de sonho, de rosa/que se dá à amada;/ na sacada?//Será que ainda se troca/num olhar apaixonado, a alegria/de amar e ser amado/mesmo aos oitenta anos?//A chama pode ter se agitado,/até quase se apagado/sofrendo o furor dos ventos,//mas continua, alentada/por esses mesmos ventos/que a sopram e a alimentam.”

Há o amor e há a dor. A dor pela morte do filho, por exemplo: “Ela, ela, e, depois, ele/Os filhos que tive,/nessa ordem://uma menina, outra menina/ e o filho homem./ Tão desejado!//Custou para chegar./Deu muito trabalho,/causou muito sofrimento.//Fez-me pagar/todos os pecados/os cometidos//e os por pecar ainda.//Quando eu morrer/ já estarei absolvida//de todos os malfeitos/de minha vida/. Presente do meu filho”. E há dores no corpo que assustam, pontadas: “Que dor é essa/que me deu hoje/ do lado esquerdo/ do peito//do lado esquerdo/ das costas/que não me deixa caminhar//que não me deixa/ respirar, será/que a definitiva/está vindo me buscar?//Mas eu não vou ainda/Não estou pronta/mil tristezas para curtir/mil poemas para escrever.//Sente-se aí no conforto/da poltrona Tok&Stock,/balança devagarinho/como se ninasse alguém.//Tão berço e acolhedora/poderia até já ser/o berço eterno/que eu pedi”.

Felizmente Dirce quer ficar ainda. E nós queremos que ela fique, Esculpindo, pintando, poetando. Ela, que traz tragédias no corpo como estigmas, nos dá força para seguir adiante, com seus poemas tão doídos e corajosos. Deixo esta resenha com o poema da Tragédia da Piedade, o Dia Setenta e Três: “Volta e meia/a grande tragédia volta:/já foi livro/memória, biografia, romance,/novela de televisão, peça de teatro/E até ópera, a de João Guilherme Ripper, estreada no Rio, que agora vejo em cartaz/ no Teatro Colón, em Buenos Aires:/A Tragédia, chamada, da Piedade,/ que de piedade não teve, não tem nada,/ nem para os que a sofreram,/nem para os que, hoje ainda/ dela trazem o estigma”.

Não, a Tragédia é uma ferida. Melhor acabar este texto com o poema escrito no Dia Cento e Setenta e Cinco: “mor e morte/são os meus temas// Por que será/ que me repito tanto/nos meus versos?// Falta de inspiração/ou obsessão doentia/ por sofrimentos?/ Gastei uma longa vida/ às voltas com eles./Como mudar agora/ que tudo se acaba,/e não sei sequer/ quanto tempo me resta?” Eu diria que o tempo da poesia, da arte e da harmonia das formas é infinito. Dirce é múltipla e infinita.

*Jornalista e escritora

--------

SERVIÇO

FRAGILIDADES - De Dirce de Assis Cavalcanti.

Editora Ibis Libris - Págs: 212 - R$ 38