Que as mulheres negras se apropriem de si
Nesta terça-feira(25), foi comemorado o dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha. A data é sempre uma oportunidade de comemorar conquistas e de refletir sobre os diversos percalços pelos quais as mulheres negras e periféricas passam ao longo de toda sua vida.
Embora hajam diferenças culturais e geográficas, algumas (e muitas) coisas aproximam estas mulheres. A cor da pele, o gênero e a luta contra o racismo. Não há como negar a gama de prejuízos históricos pelos quais as mulheres negras que vivem nas chamadas periferias do mundo sofrem.
Suportam a falta de políticas públicas eficientes e eficazes, são as que mais sofrem com a precarização no mundo do trabalho, que vivem em condições insalubres, enfrentam altos índices de mortalidade entre o grupo e ainda são estigmatizadas em relação aos seus sentimentos e sua feminilidade.
Ser mulher e negra, ser mulher, negra e periférica, produz um peso histórico de enfrentamentos que infelizmente ainda são necessários, tais como ser assistida de maneira mais humanizada no sistema de saúde e não sofrer por conta de uma crença hedionda de que a população negra, sobretudo as mulheres negras, são imunes ou sentem pouquíssima dor, principalmente no parto. Essa crença inconsciente tem produzido muitos danos.
Angela Davis, filósofa e ativista dos panteras Negras, em seu livro intitulado "Mulheres, Raça e Classe", afirma que para a ideologia dominante a população negra é supostamente incapaz de progressos intelectuais, porque estas pessoas foram propriedade, logo, naturalmente inferiores se comparada com o modelo branco da humanidade.
Isso produziu ao longo da história uma série de distorções, em que a mulher negra é de longe a que vem sofrendo os efeitos desta relação historicamente perversa, seja aqui no Brasil com seu racismo singular, ou no Haiti, que reflete o que há de mais pavoroso em relação à indiferença e reveses a que a população, e principalmente as mulheres negras, estão expostas.
Não só o dia 25 de Julho, mas que todos os dias sigamos denunciando as arbitrariedades que o racismo institucional produz no Brasil, como a invisibilização da situação da mulher negra, a desumanização e a estigmatização da sua figura, a jocosidade no trato da sua beleza e a sub-representação do seu modo de ser e estar no mundo por parte dos meios de comunicação em geral.
Que sirva também de combustível para que mais mulheres negras estejam em todos os lugares da sociedade, e não só nos que foram histórica e socialmente construídos para que elas estejam.
Que as mulheres negras se apropriem de si, de sua cultura, representação e lugar de fala. Que continuemos lutando contra os altos índices de violência doméstica, de encarceramento, de mortes violentas, de precarização, que lutemos por uma existência mais digna e menos desigual.
* Mônica Santos Francisco é pesquisadora, consultora na ONG ASPLANDE, colunista no Jornal do Brasil
