BC reduz 50% saldo comercial de 22 e PIB de 23 em 60%

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Por Gilberto Menezes Côrtes

Gilberto Menezes Côrtes

A aposta nas medidas eleitorais temporárias, para turbinar a campanha de reeleição de Jair Bolsonaro, não está ajudando o presidente nas pesquisas. E o próprio Banco Central, no Relatório Trimestral de Inflação do 3º trimestre, publicado hoje, já aponta reduções consideráveis em setores chave da economia em relação às previsões.

As contas externas, que teriam saldo positivo de US$ 4 bilhões no Balanço de Pagamentos em Conta Corrente (Balança comercial + serviços + rendas e juros), com a expectativa de que a alta das commodities devido à guerra entre Rússia e Ucrânia, faria o superávit da balança comercial saltar dos US$ 36 bilhões do ano passado para US$ 86 bilhões este ano (conforme a estimativa do RTI de 30 de junho), frustraram todas as apostas do governo, como alertamos há algum tempo.

Na revisão feita agora, o Banco Central reduziu em mais de 51% a previsão do saldo da balança comercial para apenas US$ 42 bilhões, porque os valores das importações cresceram mais do que as exportações (com a perda do apetite chinês pela soja e o minério de ferro, os principais produtos de exportação do Brasil). Só petróleo (que o Brasil exporta) e combustíveis e fertilizantes, que o país importa, estiveram em alta.

Em função da perda de US$ 44 bilhões na balança comercial e de maiores gastos com viagens, juros e remessas de lucros pelas multinacionais instaladas no país, o Balanço de Pagamentos em Conta Corrente terá agora déficit de US$ 47 bilhões estima o Banco Central.

Menos mal que o ingresso de investimentos diretos no país, estimado em US$ 70 bilhões (+ US$ 15 milhões que na estimativa de junho), cobrirá o déficit na conta corrente, implicando e maiores remessas de lucros no futuro.

Para 2023, o BC está prevendo saldo de US$ 54 bilhões no comércio e um déficit de US$ 36 bilhões na conta corrente, a ser coberto pelo ingresso de US$ 75 bilhões em investimentos diretos.

Mágica do PIB acaba antes da hora

Mas o efeito mais visível do pacote de benesses eleitorais temporárias (até 31 de dezembro) que derrubou a inflação nos preços administrados pelo governo e turbinou o crescimento para o 1º semestre, visando melhorar a popularidade do presidente Bolsonaro, começa a arrefecer antes de o eleitor escolher o novo presidente, na visão do RTI do Banco Central.

O Banco Central revisou para cima as previsões de crescimento do PIB deste ano: de 1% no RTI de março, para 1,7% no RTI de junho e agora para 2,7%, mesma taxa prevista pelo Ministério da Economia.

Entretanto, enquanto o Ministério da Economia informou, no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviado em agosto ao Congresso, contrariando todas as previsões de bancos, consultorias e institutos de pesquisas econômicas, sustenta que o PIB de 2023 vai crescer 2,5% (a mediana da última Pesquisa Focus do Banco Central ficou entre 0,50% e 0,58%), o Banco Central já reduziu em 60% a previsão de alta do PIB no ano que vem para 1%.

E a explicação do Banco Central se assemelha à descrição de uma maquiagem que começa a borrar com o calor: Dis o RTI que as “alterações no calendário de transferências governamentais às famílias como a antecipação do 13º salário dos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e a concentração do abono salarial no primeiro trimestre – e saques extraordinários de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) ocorridos na primeira metade do ano limitam a expansão da renda disponível das famílias no 2º semestre. Adicionalmente, repercussões do aperto monetário corrente sobre as taxas de juros bancárias, que influenciam as decisões de consumo e investimento das famílias e firmas, já são observadas”.

Por isso, “para 2023, projeta-se crescimento de 1,0%, com arrefecimento na demanda interna e nos componentes mais cíclicos da oferta, sob influência da esperada desaceleração global e dos impactos cumulativos da política monetária doméstica”, incluindo o emprego.

Ou seja, a bomba vai cair no colo do novo presidente (e da população, enganada por falsos brilhantes).

O descompasso da inflação

Em outro ponto, o Banco Central mostra o descompasso entre a redução artificial dos preços administrados pelo governo e a resistência de alta dos preços livres, nos serviços e na alimentação.

“Os preços administrados apresentaram forte queda (-6,34%, ante 2,70%) no trimestre e exerceram a maior contribuição para a redução da inflação na margem. O corte de impostos e o repasse da queda das cotações internacionais para os preços domésticos levaram a expressiva queda nos preços dos combustíveis. As tarifas de energia elétrica recuaram pelo corte de impostos e pelo alívio proporcionado pela devolução aos consumidores dos impostos recolhidos a maior, na forma de tarifas temporariamente mais baixas”, diz o BC.

“A análise desagregada das projeções dos analistas revela que a redução das expectativas para o ano corrente foi concentrada em preços administrados, com alguma contribuição de bens industriais. Em sentido contrário, houve aumento das estimativas para os preços de alimentação e, principalmente, serviços”.

“As expectativas para os anos de 2023 e 2024 – que neste momento caracterizam o horizonte relevante para a política monetária – tiveram elevação. Para 2023, a mediana das expectativas passou de 4,70% para 5,01%, com revisão concentrada em serviços. Com isso, situa-se acima do limite superior do intervalo de tolerância (4,75%). Para 2024, a mediana passou de 3,25% para 3,50%, acima do centro da meta (3,00%)”.

A inflação de serviços, sublinha o BC “foi a única que não arrefeceu no trimestre encerrado em agosto (1,99% ante 1,98%). A inflação subjacente de serviços se mostrou mais pressionada (2,58% ante 2,34%), refletindo robustez da demanda por serviços, repasse da inflação passada e alta dos salários”.

Caged mostra força

Por sinal, que os dados do Caged de agosto, com a criação líquida de 278.639 vagas (admissões superando as demissões), superaram ligeiramente as previsões da média do mercado (267 mil vagas), e ficaram um pouco abaixo da previsão da LCA Consultores, que esperava 285 mil novas vagas.

Vale ressaltar que o Caged, do Ministério do Trabalho e Previdência, fez a revisão - para cima - dos números de maio a julho. Maio teve 277,2 mil vagas (276,2 mil no Caged de julho); junho aumentou para 280,9 mil (de 278,7 mil) e julho teve 221,3 mil novas vagas, contra 218,9 mil na divulgação feita em 30 de agosto.

Amanhã, com a divulgação da PNAD Contínua do trimestre junho-julho e agosto pelo IBGE, será possível ver melhor como se comporta o mercado de trabalho, que tende a esfriar no próximo ano com a desaceleração da economia.