Itaú: PIB acelera em 22 e derrapa em 23
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O Departamento de Estudos Econômicos do Itaú-BBA divulgou ontem à noite (12 de setembro) a revisão do cenário para 2022 e 2023. Ante a expansão de 1,2% no PIB do 2º trimestre, “com forte desempenho da absorção doméstica”, gerando crescimento robusto do 1º semestre, e certa continuidade no 3º trimestre, o banco fez uma revisão altista para as projeções do 2º semestre deste ano: neste 3º trimestre o PIB deve crescer 0,3% (+0,1% na previsão de agosto) - a alta de 1,1% no volume de serviços em julho, na 3ª alta seguida, confirma isso.
No último trimestre, a economia ficaria estável (ante queda de 0,1% na projeção anterior). Assim, o PIB de 2022 foi elevado de 2,2% para 2,5%. Apesar da melhora no curto prazo, os fundamentos continuam indicando desaceleração da atividade. Em 2023, a nova projeção é de expansão de 0,5% (ante 0,2%), em meio à melhora no carrego estatístico.
IPCA de 6% com deflação de combustíveis
O Itaú também reduziu a projeção da inflação do IPCA de 2022, de 7,0% para 6,0%, e frisou que “ainda há riscos baixistas” [em função da baixa do GLP e de possíveis novas baixas nos combustíveis]. O Itaú espera nova baixa em torno de 5% nos combustíveis até a eleição, e queda de 5% nos preços administrados (combustíveis, energia elétrica e comunicações puxando a fila) este ano, mas “a inflação de (preços) livres deve seguir pressionada” para “pouco acima de 10% em 2022, alta próxima de 11% em Alimentos e também 11% em (preços) industriais e, para serviços, próxima de 9%”. [ver análise da Genial Investimentos a seguir].
Para 2023, o Itaú manteve a projeção em 5,3%. Para o banco “a inércia menor contribui para diminuir os riscos de alta, mas a desinflação de núcleos ainda será lenta, especialmente com a dinâmica de serviços persistente”, assinala.
Por isso, o Itaú acredita que o Copom encerrará o ciclo de aperto monetário no patamar atual de 13,75% ao ano (em 21 de setembro), quando deve reafirmar que “segue vigilante” no combate à inflação. O Itaú espera que o Copom só faça redução nos juros no 2º semestre de 2023, fechando dezembro em 11% ao ano. O banco manteve “as projeções de taxa de câmbio em R$ 5,25 por dólar para o final de 2022 e em R$ 5,50 por dólar ao final de 2023” , com “espaço limitado para apreciação da moeda, dado o ambiente global de dólar forte e possíveis oscilações do prêmio de risco local ao longo do 2º semestre deste ano”. [A manutenção da Selic em alto patamar seria uma espécie de âncora para o câmbio].
Desafio fiscal para 2023
O Depec Itaú alerta que “a sustentabilidade fiscal continuará sendo um desafio relevante. Não se trata de uma preocupação com os números fiscais de 2022, e sim com a trajetória que parece estar contratada para o futuro. O próximo governo terá de decidir sobre a continuidade dos auxílios e cortes de impostos recém-implementados, além do arcabouço fiscal que será válido à frente, em uma economia emergente com dívida pública alta e juros elevados”.
O Itaú considera em seu cenário a “prorrogação da redução dos tributos federais sobre combustíveis, continuidade da menor alíquota de ICMS para os bens considerados essenciais para estados e municípios e aprovação da manutenção do Auxílio Brasil a R$ 600 por meio de um abono (waiver) de R$ 60 bilhões no cumprimento do teto de gastos exclusivamente para este fim”.
Em função da alta arrecadação, puxada pelo PIB mais robusto e preços em alta em vários setores, o banco revisou para cima o superávit primário (receitas menos despesas, excluídos os juros da dívida pública) de 1,0% do PIB (R$ 100 bilhões em 2022 (0,3%, ou R$ 25 bilhões, na previsão de agosto) e déficit de 1,5% (R$ 160 bilhões) em 2023 (ante déficit de 2,0% - R$ 205 bilhões - na previsão anterior). Já a dívida bruta ficaria em 78% do PIB em 2022 e em 82% em 2023.
Isso reforça que “o quadro fiscal está voltando a ser um desafio relevante. Estruturalmente, a combinação de endividamento elevado em uma economia emergente, com juros altos e dúvidas sobre o marco institucional que baliza as contas públicas, em cenário de aumento de gastos sociais, implica riscos significativos para a trajetória fiscal à frente”, diz.
Desemprego sobe em 2023
Outras projeções importantes dizem respeito à taxa de desemprego e às contas externas. O banco manteve a projeção de taxa de desemprego em 9,1% ao final deste ano e em 10,1% ao final de 2023. O Itaú credita ao forte crescimento da população ocupada nos últimos meses, impulsionado sobretudo pelo processo de reabertura da economia [ao lado dos estímulos eleitorais do governo] o crescimento mais forte dos setores mais intensivos em mão de obra (como serviços e comércio). Diante da “expectativa de que esse processo já foi em grande parte normalizado”, espera “desaceleração do ritmo de alta do emprego adiante”.
Piora na balança comercial
Nas contas externas, o Itaú incorporou “uma piora na conta de rendas do balanço de pagamentos, com maior saída de lucros e dividendos este ano (US$ 44 bilhões ante US$ 33 bilhões previstos em agosto), diante da maior saída observada até maio deste ano e uma expectativa de saída com pagamento de dividendos em agosto e setembro, principalmente pela Petrobras”.
Apesar do “choque de commodities, a balança comercial brasileira não se beneficiou de uma possível melhora dos termos de troca, uma vez que os preços de importação também subiram com a alta dos preços globais de insumos industriais e de petróleo”. O superávit comercial brasileiro segue em patamar historicamente elevado, mas tem perdido força na margem, com aumento intenso das importações. As exportações seguem fortes, embora a queda de preço recente das commodities tenha impacto na sua trajetória esperada adiante”.
Ao contrário do que foi previsto após a invasão da Ucrânia pela Rússia, não deve haver ganhos na balança comercial do Brasil, diante da redução das compras de minério de ferro e soja pela China. Depois do saldo comercial de US$ 61 bilhões no ano passado, o saldo da balança cairia para US$ 58 bilhões este ano, bem abaixo dos US$ 86 bilhões previstos pelo Banco Central em junho e dos US$ 81 bilhões estimados pelo Ministério da Economia em agosto, com alguma recuperação para US$ 68 bilhões em 2023, na visão do Depec, que projeta déficits em conta corrente (balança comercial + serviços e rendas) de US$ 42 bilhões em 2022 (ante US$ 31 bilhões estimados em agosto) e de US$ 22 bilhões em 2023.
Genial vê pouco impacto do GLP
A Petrobras cortou em 4,7% o preço do gás de cozinha (GLP) para as distribuidoras, a partir de hoje. O gás de botijão não era reajustado há mais de cinco meses, desde 9 de abril, mas o impacto é pouco significativo no IPCA, segundo a Genial Investimentos, que estima redução de 0,04 pontos de porcentagem no IPCA cheio de setembro. A gestora reduziu para 5,9% o IPCA de 2022 “com viés para baixo, diante da provável nova redução da gasolina no mês de setembro e da possibilidade do fim da cobrança do ICMS sobre serviços de transmissão e distribuição de energia” em muitos estados que ainda não fizeram.
Mas a Genial alerta para um “risco para o cenário inflacionário em 2024”, diante do retorno dos tributos federais (PIS/COFINS e CIDE) naquele ano. Para 2023, diante da previsão orçamentária, a hipótese de manutenção da desoneração nos parece factível, entretanto, diante da maior necessidade de receitas para manter o equilíbrio fiscal, a percepção dos agentes com a viabilidade fiscal da medida já começa a modificar as expectativas de inflação para 2024, sendo um risco altista para o cenário de inflação do Banco Central” (a meta é de 3% com tolerância de 1,50 ponto percentual = 4,50%).
