Baixa do IPCA na BIC desorienta BC

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Por Gilberto Menezes Côrtes

Gilberto Menezes Côrtes

Ao participar, 5ª feira, de evento no Banco BTG-Pactual, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, comentou que os impactos das reduções eleitoreiras a canetadas BIC de preços e impostos estão influindo nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), considerando março de 2024 como o período relevante da política monetária. Segundo Campos, a zeragem do PIS e Cofins sobre a gasolina até o fim do ano causará alta da inflação no começo de 2023. Mas a queda da inflação este ano, empurrará para baixo o IPCA de 2023.

Para Campos, a estimativa do impacto total na inflação de 2023 estava cercada de muita certeza e o efeito ainda seria mais claro no início do próximo ano. Com o corte artificial dos preços neste 2º semestre, o Copom decidiu dar maior ênfase para a inflação acumulada em 12 meses em março de 2024. Campos Neto deixou claro que foi uma mudança temporária e que continua o regime de metas de inflação, baseado no ano calendário.

A gangorra dos PIBs

Por ora, o BC tateia no escuro. Imagina o que pensam os agentes econômicos.

O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco fez, semana passada, novas projeções para a economia mundial e o Brasil. Enquanto o mundo caminha para forte desaceleração este ano (após crescimento de 6,1% em 2021 cai para 3,1% em 2022).



Já o Brasil, na revisão do cenário de julho para agosto, desacelera de 4,6%, em 2021, para 2,3%, em 2022 (aqui um aumento em relação à previsão de crescimento de 1,8% feita em julho, pois o Bradesco acredita que a distribuição de R$ 41,2 bilhões para os bolsos dos eleitores vai gerar aquecimento temporário da demanda neste 3º trimestre.



De outra parte, as medidas eleitoreiras para redução de impostos na energia elétrica, comunicações e combustíveis provocam queda artificial da inflação medida pelo IPCA, que baixa de 7,5% (na previsão de julho) para 7,1% em agosto. Para 2023, a projeção do IPCA foi mantida em 4,9%.

Entretanto a elevação dos juros até 13,75% e a expectativa de que o alívio só ocorrerá no fim do 2º trimestre de 2023, com a taxa Selic (piso da dívida pública e das operações do sistema financeiro) fechando o ano em 11,75%, fará o PIB ter crescimento zero no ano que vem.



 

O BC tateia no escuro

Uma das incógnitas é a política fiscal. Para Campos, parte das medidas fiscais aprovadas recentemente serão mantidas em 2023. A questão em aberto é como será feito o financiamento (cobertura dos gastos), com mais impostos ou por endividamento público. Seja com Lula (que lidera com 47% a última ampla pesquisa do DataFolha), ou Bolsonaro (que subiu para 32%), o ajuste da política monetária pelo BC seria menos árduo se a política fiscal ajudasse.

Ele acredita, que o próximo presidente terá de equilibrar as demandas por maiores gastos sociais com a sustentabilidade da Dívida Pública Federal, pois a política fiscal impacta a demanda, os preços dos ativos e a trajetória da inflação. Aproveitou para lembrar ter sido contra a recondução do mandato da diretoria do Banco Central. Assim, fica no cargo só até dezembro de 2024.

O subterrâneo do desemprego

O economista Ricardo Paes de Barros, um dos responsáveis pelas políticas compensatórias de renda no governo Fernando Henrique Cardoso e que foram reunidas de forma mais robusta no Bolsa Família do governo Lula (transformado pelo presidente Bolsonaro em Auxílio Brasil, para tirar um trunfo da manga do seu adversário), estuda a fundo as diversas camadas do mercado de trabalho no país e encontrou um problema que se agravou na pandemia.

Para ele, a atual pujança do mercado de trabalho brasileiro (usada pelo governo para dizer que a economia vai bem) esconde um problema que já existia mesmo antes da pandemia. A taxa de desemprego entre os mais pobres tem ficado sistematicamente acima da dos demais estratos de renda da população. Olhando apenas os dados de São Paulo em 2021 é possível notar que a taxa de ocupação da população em idade ativa (PIA) já voltou aos patamares pré-pandemia, perto de 60%.

Essa porcentagem, no entanto, cai para 10% entre os 5% mais pobres em São Paulo, um contingente de aproximadamente 2 milhões de pessoas. O mercado de trabalho está se recompondo de forma mais exigente em relação às qualificações dos trabalhadores (sobretudo familiaridade com computadores).

Sem um “boom” ou programas de frentes de trabalho em obras públicas (uma das propostas de Ciro Gomes, por exemplo), vai ser difícil reduzir o desemprego estrutural entre a população mais pobre e que não teve acesso a uma educação de qualidade na infância e juventude. Isso ajudaria a explicar o baixo crescimento do PIB brasileiro, com a baixa produtividade da mão-de-obra e a falta de ampliação da renda média do país (que alargaria o mercado de consumo).

Petrobras sob risco

O governo Bolsonaro conseguiu acessar os painéis de controle da Petrobras, com a nomeação de Paes de Andrade, afinado com os ministros Paulo Guedes (Economia) e Adolfo Sachsida (Minas e Energia), para aproveitar a redução dos preços internacionais do petróleo e dos combustíveis e empurrar mais para baixo os preços da gasolina e do diesel. Com isso, pode melhorar a imagem de Jair Bolsonaro na campanha pela reeleição, usando a baixas destes insumos (via redução do ICMS) como combustível eleitoral.

Mas, se insistir na Assembleia Geral Extraordinária da Petrobras, desta 6ª feira, para fazer valer o poder de voto majoritário da União e insistir nas indicações de dois nomes, cujas nomeações foram consideradas inelegíveis pelo Comitê de Elegibilidade (Celeg): Jônathas de Castro, secretário-executivo da Casa Civil, e Ricardo Alencar, procurador-geral da Fazenda Nacional, vai comprar briga judicial com a Associação Nacional dos Petroleiros Acionistas Minoritários da Petrobras. A Anapetro, que já recorreu à Comissão de Valores Mobiliários, advertiu que judicializaria a AGE se a União ignorar o veto do Celeg.