Qual o grau de erros do Banco Central?

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Por Gilberto Menezes Côrtes

Gilberto Menezes Côrtes

Ser engenheiro de obra feita é fácil. Difícil é comandar o Banco Central no Brasil com a responsabilidade de: “Garantir a estabilidade do poder de compra da moeda, zelar por um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo, e fomentar o bem-estar econômico da sociedade”. Para cumprir essas metas, o BC dispõe apenas de instrumentos monetários (taxas de juros, com intervenções diárias no “open market”, redescontos e os encaixes compulsórios), o que é muito pouco ante a forte inflação importada pelos impactos da invasão da Ucrânia pela Rússia e o governo esbanja gastos para tentar aumentar as chances da reeleição do presidente Jair Bolsonaro.

Mas a taxa de erros do Banco Central tem sido imensa em relação à previsão das metas de inflação (principal objetivo da política monetária, instituída em 1999, quando o país abandonou a âncora cambial e adotou o câmbio flutuante). Em todo o período, ressalve-se, o Banco Central raramente contou com o amparo de uma política fiscal capaz de ajudar às metas de controle da inflação. A tônica foi a expansão de gastos, como agora.

Entretanto, é preciso destacar que as metas contam com largo intervalo de tolerância de estouro - para cima e para baixo. Mesmo com a elasticidade das metas, houve estouros em 2001, 2002, 2003 (a partir de quando se adotou metas mais realistas) e em 2015, 2017 e 2021. O único ano em que houve estouro para baixo (inflação menor que o piso de tolerância inferior) foi em 2017 (a meta era de 4,50%, com tolerância de 1,50 ponto percentual para cima ou para baixo, e o IPCA foi de 2,95%).

 

O passado ajuda a ver o futuro

Várias razões contribuíram para o resultado anômalo de 2017. Era o 1º ano completo do governo Temer (interino desde maio de 2016 e efetivo desde agosto do ano anterior). Houve uma excelente safra agrícola, que provocou deflação nos alimentos, após dois anos de altas acima da inflação, devido às quebras de safras. A criação do teto de gastos amarrou a política fiscal.

Já o câmbio e os preços administrados, contidos artificialmente em 2013 e 2014 para garantir a reeleição de Dilma, que dispararam tão logo as urnas foram apuradas em outubro de 2014 (o câmbio, os juros, os combustíveis, as tarifas de energia e telecomunicações puxaram a inflação nos anos recessivos de 2015 e 2016, quando o PIB encolheu 3,6% e 3,3%, respectivamente), voltaram ao terreno da normalidade, o que ajudou o BC a baixar os juros, que agora estão retornando aos patamares de 2017 para debelar a inflação.

Para 2022, o último Relatório Trimestral de Inflação, apresentado semana passada, reconhece que “há 100% de probabilidade de estouro da meta (3,50% de IPCA, com tolerância de 1,50 ponto percentual = 5%). Antes do pacote de bondades, as previsões do mercado eram de que o IPCA fecharia acima de 9%. Agora, com a implementação das bondades (com cortes de impostos e bilhões em subsídios diretos que valem só até 31 de dezembro, mas se ampliam a cada dia para tentar ajudar a campanha de Bolsonaro) as previsões para o IPCA deste ano desceram ao patamar de 7%. Como num efeito bumerangue, as projeções para 2023 não param de crescer em relação à inflação, estimada acima de 5% (a meta é de 3,25% + 1,50 p.p.= 4,75%). No RTI, o BC reconheceu que “há 29% de chances de estouro da meta de 2023”.

Um dos motivos que levaram o governo a sacar fundo nos gastos deste ano para turbinar a bolsa de bondades e reanimar as chances eleitorais do presidente Bolsonaro foi justamente o excesso de arrecadação em relação às metas elaboradas para o Orçamento Geral da União de 2022. E a razão do excesso de arrecadação veio, sobretudo, da inflação muito acima da meta.

Não é só a probabilidade de estouro da meta que chega a 100%. A própria meta (até aqui) situa-se 100% acima do previsto. A inflação mais do que dobrou em relação à meta e a alta localizada nos combustíveis engordou muito a arrecadação. Chega a ser cinismo do governo, que engordou as burras nos primeiros seis meses (e pretende esvaziá-las neste 2º semestre para seduzir o eleitor), demonizar a Petrobras pela inflação. A arrecadação de combustíveis (incluindo o etanol que não foi afetado diretamente pela guerra na Ucrânia, mas acompanhou a alta da gasolina) facilitou a bolsa de bondades do governo.

 

Impactos do estelionato eleitoral em 2023

A questão é que em 2023 o quadro que se apresenta é absolutamente inverso do que descreve o ministro da Economia, Paulo Guedes. A economia não está decolando, mas pousando. O PIB, que pode crescer de 1,6% a 2% este ano, teria taxa 0% ou até negativa em 2023, com a inflação mais contida. O ajuste do figurino da arrecadação ao perfil de gastos exigirá um spa geral: os gastos atingiram tamanho GG, que não cabe no figurino M da previsão de receitas.

Vejam o caso dos aposentados. Os benefícios devem ser corrigidos por 7% a 8% (previsão do INPC até dezembro), mas a arrecadação em 2023 não deve crescer mais que 3% a 5%. Nos estados e municípios o quadro será dramático, com a perda de receitas do ICMS, com a União sem caixa para compensar.

O governo eleito (ou reeleito) terá que se haver em 2023 com as consequências do estelionato eleitoral adotado pelo pacote de bondades de Bolsonaro, aprovado pelo Senado e pela Câmara dos Deputados.

 

O erro do superávit comercial

Em 2021, o Brasil fechou com superávit de US$ 36 bilhões na balança comercial. No 1º semestre, quando se concentram as exportações do agronegócio, o saldo das vendas externas sobre as importações foi de US$ 37 bilhões. No 2º semestre, houve déficit de US$ 1 bilhão e a balança comercial fechou com saldo final de US$ 36 bilhões.

Pois tanto o Ministério da Fazenda quanto o Banco Central apostaram alto (e errado, estimulando muitos consultores a fazerem o mesmo) na capacidade de a alta dos preços de “commodities” (agrícolas, minerais e energéticas), impulsionadas pelas sanções posteriores à invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, dar um empuxo no crescimento da economia brasileira este ano.

O Ministério da Economia chegou a prever, até a semana passada que o superávit da balança comercial atingiria a cifra recorde de US$ 111,5 bilhões este ano. Diante do registro de apenas US$ 34,3 bilhões no 1º semestre (menos que os US$ 37 bilhões do mesmo período de 2021), o ministério reduziu a previsão no dia 1º de julho para US$ 81,5 bilhões.

Já o Banco Central, publicou um box no RTI de junho no qual eleva de US$ 83 bilhões para US$ 86 bilhões a previsão de superávit comercial de 2022. Todas essas revisões estão sendo furadas pela realidade.

Se as cotações das “commodities” dispararam até abril, e geraram inflações recordes nos Estados Unidos e Europa nos 12 meses acumulados até maio, as decisões dos bancos centrais - liderados pelo Federal Reserve Bank, dos EUA - de elevar fortemente as taxas de juros, derrubaram as cotações especulativas com alimentos, metais e artigos energéticos e a tendência de desaceleração da economia mundial, a começar pela China, aponta para o risco de recessão em 2023 em alguns países. Por isso, as cotações caíram no fim do 1º semestre, conforme levantamento da Bloomberg elaborado pela LCA Consultores.

 

AEB vai rever meta para baixo

O presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, reconhece que a situação mudou muito e por isso a AEB revisará para baixo as projeções deste ano. Ele lembrou que no 1º semestre, as importações cresceram mais que as exportações (30% X 20,5%), invertendo o quadro de 2021, quando as exportações brasileiras cresceram 35,2% e as importações 26,5%.

Ele chama a atenção para dois fatos negativos: o minério de ferro está em queda de preços e de volume e a soja não deve ter excedentes para exportar no 2º semestre e deve fechar o ano com menos 10 milhões de toneladas exportadas. Em sentido inverso, as cotações do petróleo e combustíveis importados (GLP e diesel) estão resistindo e tendem a subir no 3º trimestre, com o frio no Hemisfério Norte, situação agravada pela redução da oferta de gás natural pela Rússia à Europa.

 


Para não desesperar

O Departamento de Estudos Econômicos do Itaú-BBA publicou ontem, 4 de julho, uma edição especial para comemorar a 400ª edição do seu “Conjuntura Macro”, boletim conjuntural lançado em 1º de abril de 1989 pelo Banco BBA (comprado pelo Itaú em 2002). Na época, a avaliação chegava aos clientes e à mídia via fax. Muita coisa mudou desde então e os editores mostram que não há motivos para se desesperar. Ao contrário, é preciso ter esperança no futuro.

O Brasil teve desde então quatro moedas diferentes até o real, em 1º de julho de 1994. Houve a queda do muro de Berlim, múltiplas crises de mercados emergentes, o rompimento da bolha “ponto com”, o crash financeiro de 2008, uma pandemia, e o maior conflito armado na Europa desde a 2ª guerra mundial (a invasão da Ucrânia pela Rússia).