LCA vê sinais de inflação menor; Itaú, ainda não
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Como dissemos ontem, a LCA Consultores também viu sinais positivos no fato de que, apesar da forte disseminação da inflação, a taxa de 1,73% no IPCA-15 ficou abaixo do esperado. Após analisar a prévia do IPCA de abril e o resultado do IGP-M de abril, que subiu 1,41%, contra 1,74% em março (já absorvendo os impactos da alta dos combustíveis em 11 de março e o refresco na energia elétrica a partir de abril e a redução de 5,58% no GLP em fins de março), a consultoria está prevendo que a inflação oficial vai desacelerar este mês para 0,84% (contra 1,62% em março), “destacadamente pela mudança de bandeira em energia e parcial descompressão (...) em alimentos e combustíveis”.
O Itaú não é tão otimista. Depois de analisar o aumento no índice de difusão de preços, de 75,5% em março para 78,7% no IPCA-15 de abril (quase 10 pontos acima da média de 68,1% nos últimos 12 meses), o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú, mesmo com tendência de desaceleração nos preços dos alimentos em domicílio e da energia elétrica (que pode causar deflação no item Habitação, em abril, na visão da LCA) prevê alta ainda forte em abril, de 1,01%.
Com isso, a taxa em 12 meses chegaria a 12,07%. Itaú e LCA apontam queda na taxa mensal de inflação. A principal diferença é frente ao declínio da inflação acumulada em 12 meses. Para a LCA, a queda em abril já impediria a taxa de ultrapassar a barreira dos 12%. A consultoria apontou bons sinais de queda nos preços do atacado no IGP-M de produtos como a soja, o milho e o café.
Até quando teremos dois dígitos?
Ao decompor os diversos núcleos da inflação, as economistas Júlia Passabom e Luciana Rabelo, do Itaú, listam dados preocupantes no IPCA-15. A inflação nos preços administrados acelerou de 0,65% para 3,23%, com a taxa em 12 meses subindo a 16,0% (de 14,1%). Já os preços livres subiram 1,25% no mês, quase igual à variação de março, com a taxa em 12 meses indo a 10,6% (de 9,6%). Essas taxas tendem a produzir efeitos secundários de ajustes nos preços relativos, cujo repasse depende do freio da política monetária.
A projeção do Itaú segue com uma forte queda na taxa mensal em maio (para 0,29%) e junho (0,46%). Como a taxa mensal de maio de 2021 foi de 0,83%, a taxa de inflação em 12 meses recuaria dos 12,07% de abril para 11,66%. Em junho de 2021 o IPCA subiu 0,53%. Se o Itaú acertar na previsão, a taxa em 12 meses recuaria para 11,59%. Em julho de 2021 a alta foi de 0,96% e de 0,87% em agosto.
Mesmo assim, se as previsões do Itaú estiverem certas e os índices de julho e agosto não ficarem abaixo de 0,29%, a inflação em 12 meses fará aniversário na casa de dois dígitos. Os dados de agosto serão revelados pelo IBGE dia 9 de setembro, já na reta final da campanha eleitoral (o 1º turno é dia 2 de outubro). Se os dados do PIB do 2º trimestre, que o IBGE divulgará dia 1º de setembro, também não forem animadores, será outro revés para o presidente Bolsonaro.
Até aqui, a inflação mais intensa para as camadas mais pobres (a maioria do eleitorado, captado pelas taxas do INPC, que mede as despesas das famílias com renda até cinco salários mínimos - R$ 6.060), pressionada pela escalada dos preços da alimentação tem provocado aumento das intenções de voto no ex-presidente Luta. O movimento pode aumentar se a alta da comida vier acompanhada de reajustes em ônibus urbanos e nas tarifas anuais de energia nas diversas regiões - na faixa de 13% a 21%, em decorrência da cobertura de gastos das distribuidoras, em 2020 e 2021, com a geração de energia em termoelétricas, no auge da crise hídrica, um grande erro de gestão do governo.
Para onde vão os juros?
O otimismo da LCA, às vésperas da reunião do Copom (3 e 4 de maio), pode determinar o rumo futuro da taxa Selic: uma alta final para 12,75% semana que vem, ou a continuidade até 13,25% em 15 de junho, como espera o mercado na última Pesquisa Focus. A consultoria aponta dados promissores, já captados nos preços agrícolas no atacado dentro do IGP-M, que devem se refletir no IPCA, como a “perda de tração em Tubérculos, raízes e legumes, Hortaliças e verduras e em Frutas”. A LCA também espera taxas mais baixas em Carnes, Pescados, Bebidas e infusões, Enlatados e conservas, como também no subgrupo Alimentação fora do domicílio.
Apesar disso, a taxa mensal esperada de 0,84% seria muito alta, sobretudo porque a inflação foi de 0,31% em abril do ano passado, e a taxa de 12 meses, que estava em 11,30% em março, se elevaria para 11,88%, embora não chegue aos 12% alcançados pelo IPCA-15 de abril (12,03%). A continuidade do processo de alta aqui vai depender muito da leitura da mensagem do Federal Reserve, que decide às 14 horas de 4ª feira (horário do Brasil) os passos futuros da política monetária nos Estados Unidos para enfrentar os impactos inflacionários do prolongamento da guerra da Rússia na Ucrânia.
Luz no fim do túnel?
Além do refresco na alimentação e bebidas, a LCA projeta, com a alteração de bandeira tarifária de energia elétrica implementada no último dia 16/04, de bandeira escassez hídrica para bandeira verde, uma queda de -16,0% em energia elétrica residencial - levando em conta o consumo médio domiciliar brasileiro e o valor médio domiciliar por bandeira -, o que afetará o índice entre o IPCA fechado de abril e o IPCA-15 de junho. A consultoria espera deflação para Habitação em abril, já que os primeiros efeitos desta mudança em energia já aparecerão neste mês.
Mas ela ainda prevê “diluição parcial dos reajustes de gasolina e diesel anunciados ao início de março, o que tirará parte da força do grupo Transportes”, que poderá aliviar a taxa do mês.
Mas sempre há o risco de que no fim do túnel a luz seja de um trem em sentido contrário. No caso, a LCA, projeta aceleração de Saúde e cuidados pessoais, com os impactos do importante anúncio de reajuste em produtos farmacêuticos ao final de março que devem aparecer a partir de abril. E a partir de maio virá o reajuste pesado dos planos de saúde (as operadoras pleiteiam de 13% a 15%, para compensar redução de 8,9% no ano passado).
Vale mais a decisão que o balanço
O balanço da Vale no 1º trimestre foi razoável, com o lucro de R$ 23,040 bilhões apresentando queda de 23% frente ao 4º trimestre de 2021 e de 27,4% em relação a igual período do ano passado, em parte devido ao menor volume de produção pelo impacto das chuvas no sistema Sudeste e atraso no licenciamento ambiental das minas em Carajás (PA), que poderiam compensar.
Mas bastou a empresa informar ontem que iria fazer um novo programa de recompra de ações ordinárias, limitado a um máximo de 500 milhões de ações ordinárias e seus respectivos ADRs, representando cerca de 10% das ações em circulação (float), maior do que dobrando o programa em vigor, para as ações e ADRs dispararem ontem e hoje, no “after market”.
Resta saber, na AGE de amanhã, se a medida foi uma tentativa de neutralizar o impacto da ação iniciada na Securities Exchange Comission, dos Estados Unidos, na qual acionistas responsabilizam a companhia por não alertar para o risco de rompimento de barragens de rejeitos de minérios em Minas Gerais, como a que se rompeu em Brumadinho, em janeiro de 2019.
