Estouro de mísseis e da inflação

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Por Gilberto Menezes Côrtes

Gilberto Menezes Cortes

A escaramuças na Ucrânia, após a declaração de reconhecimento pela Rússia de Vladimir Putin de dois enclaves (Donetsk e Luhansk), em total descumprimento ao tratado de Minsk, de janeiro de 2015, não provocaram somente explosão de bombas e forte mobilização diplomática em todo o mundo. Junto com a disparada dos preços do petróleo (o tipo Brent superou a casa dos US$ 94,8 por barril, numa alta de quase 8% em um mês), também foram detonadas as previsões de inflação do IPCA este ano, que deve, novamente, estourar o teto máximo da meta do Banco Central (3,50% + 1,50 p.p. de tolerância = 5,00%).

Em projeção divulgada nesta 3ª feira, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério da Economia, o Ipea reviu para cima as projeções do IPCA deste ano - de 4,9%, feita em dezembro, para 5,6% acima do teto do BC. Para 2023 a média da Pesquisa Focus, divulgada pelo Banco Central na 2ª feira, foi elevada para 3,58% e a inflação implícita atingiu 5,87%, contra 5,77% no sexta-feira anterior, observa a LCA Consultores (a meta do BC é de 3,25%, com tolerância de 1,50 p.p. = 5,25%).


 

O Ipea explica que a “revisão foi motivada por fatores que combinam: inflação corrente elevada, pressões persistentes de commodities, cadeias produtivas desreguladas e condições climáticas menos favoráveis para algumas culturas agrícolas neste início de ano”.

No caso do IPCA, além de uma revisão mais abrangente dos preços dos alimentos no domicílio e dos bens livres, com previsões que avançaram de 4,5% e 3,7% para 6,1% e 5,0%, respectivamente, a alta estimada para os preços monitorados passou de 5,4% para 6,0%.

No caso dos serviços livres e da educação, foram mantidas as estimativas de 5,2% e 7,9%, tendo em vista que seguem vigentes as condições utilizadas para a projeção anterior, ou seja, crescimento econômico moderado e recuperação gradual do mercado de trabalho, o que deve impedir uma retomada mais forte da demanda interna.

A variação projetada para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) também foi revista pelo Grupo de Conjuntura do Ipea para cima: de 4,6% para 5,5%. A pressão maior dos preços dos alimentos no domicílio e dos bens industriais, com taxas de variação estimadas que avançaram de 4,5% e 3,8% para 6,4% e 4,9%, respectivamente, contribuíram para este aumento.

No caso dos preços monitorados, onde há influência dos preços dos combustíveis (em tendência de alta) e da energia elétrica (em tendência de alta, pela recuperação dos níveis dos reservatórios das hidroelétricas com o excesso de chuvas) houve alta de 5,4% para 6,1%. As taxas de inflação para os serviços livres e a educação foram mantidas em 4,5% e 6,7%, respectivamente.

 

 

No caso da Educação (e de outros preços corrigidos pela inflação passada), há grande inércia causada pela indexação. A forte inflação do ano passado (10,06% pelo IPCA, 17,74% pelo IGP-DI e 17,78% pelo IGP-M) funcionam como inibidores inerciais da queda da inflação pela ação da política monetária.

Diante do caráter aleatório da alta dos combustíveis e dos alimentos, e a insensibilidade dos preços administrados, a eficácia da política monetária do Banco Central se restringe aos preços livres. É muito esforço para pouco resultado. O Brasil perdeu várias oportunidades de avançar na desindexação. A crise financeira mundial de 2008 foi a mais perfeita para promover a desindexação. Na pandemia da Covid-19 perdeu-se outra janela de oportunidade. Agora, é mais difícil.


Indicadores do BC e as eleições

Os dados divulgados nesta 3ª feira pelo Banco Central em seu Boletim Regional podem servir de guia interessante para as campanhas políticas identificarem as convergências entre os problemas econômicos e do desemprego com o próprio desempenho do eleitorado nestas regiões.

Pelos dados do IBC-Br, a economia brasileira teria crescido 4,7% no ano passado com ajuste sazonal (o IBGE divulgará os dados do PIB em 4 de março). O maior crescimento foi observado no Sul (+6,0%), região que concentra 15% do eleitorado. O Sudeste, que concentra 43% dos eleitores, cresceu abaixo da média brasileira, 4,4%, e o Nordeste, 2º maior colégio eleitoral do país (27%) teve crescimento de apenas 3%.

O pior desempenho foi da região Norte (+2,9%), influenciado pela falta de suprimentos de chips para a Zona Franca de Manaus, mas a região concentra apenas 8% do eleitorado. A região Centro-Oeste, que concentra a produção do agronegócio e 7% do eleitorado, teve expansão de 3,4% no PIB.

Um dado interessante é que no mapeamento do Banco Central a produção de soja da região Norte (que engloba os estados do Tocantins, Pará e Rodônia) ficou em 6,85 milhões de toneladas, volume pouco expressivo em relação ao total exportado pelo Brasil. É praticamente a mesma produção de Minas Gerais (6,79 milhões de toneladas). O Centro Oeste produziu 61,2 milhões de toneladas e o Sul, 36,6 milhões. O Nordeste (representado pelo Noroeste da Bahia, Sul do Maranhão e Sul do Piauí), produziu 24,4 milhões de T.).

Mas a produção mais criticada pelos ambientalistas, a de carne bovina, não foi regionalizada pelo Banco Central.