Guedes podia mudar BC junto com FMI
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Boquirroto incorrigível, desde os tempos, em que voltando de uma pós-graduação em Chicago após escala na assessoria econômica do Chile de Pinochet, passou a fazer previsões econômicas que nunca acertava quando era economista-chefe do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Paulo Guedes ganhou o apelido de ”Beato Salu”, personagem da novela Roque Santeiro, que fazia previsões catastróficas, tipo fim do mundo.
Suas previsões de escalada da inflação nunca eram atingidas, mas, no movimento de manada do mercado, sempre dava para ganhar nas aplicações financeiras. As previsões passaram a dar lucros quando virou economista-chefe e sócio da Pactual Distribuidora, em 1985, que depois virou banco.
Mas, a partir do momento em que virou vidraça e vê as previsões do seu Ministério da Economia sendo desmentidas pelos fatos (PIB bem abaixo e inflação bem acima do previsto, forçando o Banco Central a elevar os juros, sem conseguir evitar a disparada do dólar), o ministro Paulo Guedes fica contrariado e mal educado.
Irritado com as observações do ex-presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, sobre erros na condução da política econômica, em encontro cordial no qual estiveram presentes o atual presidente Roberto Campos Neto e os ex Henrique Meirelles, Armínio Fraga, Affonso Celso Pastore e o ex-diretor de política monetária, André Lara Resende, Guedes perdeu as estribeiras.
Contrariado com o fato de que Goldfjan será diretor para o Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (com jurisdição sobre o Brasil), Guedes tratou de desqualificar as previsões do FMI sobre a economia brasileira e mundial (o mote é que na esteira de uma queda superior a 6% na economia mundial o FMI previu que o PIB brasileiro cairia mais de 9% - a economia mundial se recuperou mais cedo e caiu pela metade e o PIB do Brasil encolheu 4,1% [com revisão recente do IBGE para 3,9%]). Previsões não são verdades absolutas. Variáveis climáticas, políticas e econômicas podem desmenti-las.
Mas Guedes não ficou por aí e avançou no terreno da grosseria. Disse que vai desmontar em junho do ano que vem o escritório representativo do FMI no Brasil. "Que eles vão fazer as previsões deles em outro lugar", disse o ministro, para quem o FMI já fez o que tinha que fazer no Brasil e que já poderia ter ido embora. E emendou que "só não foi embora porque talvez gostem do futebol, da feijoada e de bom papo".
BC não se cansa de errar
Exemplos de erros domésticos em previsões econômicas são muitos. Cansei de ouvir, em 1983, 1984 e 1985 Guedes dizer que a inflação saltaria para 130%, 150% e até 200%. Não chegava a tanto, mas a especulação no mercado do "overnight" dava lucros fantásticos. Jogava-se a linha e no anzol vinham os peixes. Em tempos recentes, tanto o Banco Central quanto a Secretaria de Política Econômica, chefiada por Adolfo Sachsida, que vai ganhar nova musculatura agregando Ipea e IBGE, cansaram de ser furados pelos fatos.
As previsões do Orçamento Geral da União para 2021 foram feitas com alta de 4,5% no IPCA. Como vai dar 10,2% na última previsão do Relatório Trimestral de Inflação, apresentado hoje pelo Banco Central, com dados até 3 de dezembro, o próprio governo, surfando na alta da arrecadação, puxada pela forte alta dos combustíveis (devido ä alta do barril do petróleo e do gás e da desvalorização do real, agravada pela crise hídrica, que encareceu a energia), tratou de espichar o indexador do OGU, dos 12 meses terminados em junho para o IPCA acumulado até o fim do ano (até novembro a taxa em 12 meses chegou a 10,74%). Assim, estourou sem ferir o teto dos gastos para ampliar o cacife eleitoral de Bolsonaro em 2022.
Mas as projeções do PIB foram mais erráticas, ainda, mostrando que errar não é privilégio dos economistas do FMI. Em junho, o governo e o BC reajustaram a previsão de crescimento do PIB dos 3,6%, estimados em março, para 4,6% (no mês seguinte o número foi elevado para 4,7% e o ministro Paulo Guedes cansou de dizer até fins de outubro que a ”economia está bombando, na faixa de 5%”). Agora o Banco Central reduziu novamente a previsão para 4,4%.
Quem está errado, afinal? O Banco Central deve ser fechado? Cartas e emails para a coluna.
Recado de Kanczuk
Responsável pelo Relatório Trimestral de Inflação e pela reunião de subsídios para o Comitê de Política Monetária (Copom) decidir o rumo da política monetária e das taxas de juros, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, deixa o cargo em 31 de dezembro, ao não ter o mandato renovado. Mas ele aproveitou o RTI de dezembro para mandar um recado, para destacar a importância do controle da inflação.
”A literatura econômica indica que taxas de inflação elevadas e voláteis geram distorções que levam a aumento dos riscos e impactam negativamente os investimentos. Essas distorções encurtam os horizontes de planejamento das famílias, empresas e governos e deterioram a confiança de empresários. Taxas de inflação elevadas subtraem o poder de compra de salários e de transferências, com repercussões negativas sobre a confiança e o consumo das famílias. Além disso, produzem dispersão ineficiente de preços e diminuem o valor informacional que os mesmos têm para a eficiente alocação de recursos na economia. Inflação alta e volátil tem, ainda, efeitos redistributivos de caráter regressivo.”
E arrematou: “As camadas menos favorecidas da população, que geralmente têm acesso mais restrito a instrumentos que as protejam da perda do poder de compra da moeda, são as mais beneficiadas com a estabilidade de preços. Em resumo, taxas de inflação elevadas reduzem o potencial de crescimento da economia, afetam a geração de empregos e de renda, e pioram a distribuição de renda”. Não ajudou a segurar a inflação mas o recado está dado.
A produção encalhou
A Sondagem Industrial de novembro da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra um sinal perigoso para a economia: o índice de evolução do nível de estoques aumentou 4,8 pontos sobre novembro de 2020, chegando a 50,6 pontos. O resultado rompeu a tendência de estoques abaixo do planejado, que vinha desde dezembro de 2019. Mas o que parece ser um ajustamento nos suprimentos da cadeia produtiva (desde o último trimestre há ruptura na cadeia global de suprimento de componentes eletrônicos) pode ser um mau sinal.
O gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo, explica que o estoque real está um pouco acima do nível planejado pelas empresas. Na comparação com novembro de 2020, momento crítico de baixos estoques no ano passado, o índice mostra aumento de 6,6 pontos.
“Esse resultado começa a indicar menos gargalos para a indústria. Contudo, nossa preocupação é que o aumento do estoque começa a indicar alguma frustração do empresário com a demanda e, assim, apontar para a desaceleração da indústria. A combinação entre estoques e produção é um fator para acompanharmos nos próximos meses”, explica Marcelo Azevedo.
Divórcio Petrobras X Braskem
Foi um grande casamento de conveniência. A Petrobras entrou no ramo petroquímico, em 1972, no Polo Petroquímico de Camaçari (BA). Uma das construtoras foi a Norberto Odebrecht, que tinha feito a sede da Petrobras, na Avenida Chile, no Rio, a partir de 1969 (a inauguração foi em 1973). Em 1979, a CNO adquiriu 33% da CPC e verticalizou a presença na petroquímica com as privatizações do setor iniciadas no governo Collor (1990-93).
Mas o grande enlace se deu com a criação da Braskem, que foi encarregada de operar o polo petroquímico de Paulínia (SP), colado ä maior refinaria da estatal. Com a matéria prima principal da petroquímica (a Nafta) fornecida como ”dote” pela estatal (uma eterna garantia de oferta e preços camaradas), parecia um casamento perfeito. Principalmente quando a Petrobras ainda ficou, em 2005, no governo Lula, com 47% das ações ordinárias da Braskem (a CNO, que virou Novonor no fim de 2020, após os escândalos da Lava-Jato, tem 50,1% das ações ON, e 38,3% do total, incluindo as PNs, contra total de 36,1% da Petrobras).
Mas as rusgas de um casamento de conveniência (mais para o ex-grupo Odebrecht que para a estatal) prevaleceram e o conselho de administração da Petrobras aprovou o modelo de venda de até 100% das ações preferenciais que detém na Braskem, a ser conduzido por meio de oferta pública secundária de ações ("follow on"), em conjunto com a Novonor e a NSP Investimentos, ambas em recuperação judicial. A operação pretende aproveitar a maior liquidez dos papéis com a futura migração da Braskem para o Novo Mercado, nível mais elevado de governança corporativa da B3.
A CNO tenta vender sua parte na Braskem, que também tem grande unidade no México, desde fins de 2018. A holandesa LyondellBasell desistiu do negócio em 2019 e a pandemia da Covid-19 virou oi mercado de ponta cabeça. Um dos passivos da Braskem está nas indenizações a proprietários de imóveis em bairros de Maceió, destruídos pelas escavações subterrâneas da Salgema, comprada pela CNO nos anos 80. Mas as avaliações avançaram muito.
