Bolsonaro culpa governos pela inflação!?
.
A insanidade do presidente Jair Bolsonaro, ou melhor sua fuga da realidade ante o fracasso de sua administração em várias frentes, chegou hoje às raias do absurdo (se é que há limite para o atual presidente da República). Após tentar transferir a culpa pela escalada dos combustíveis aos “governadores”, (que cobram ICMS) pois “os preços saem baratos das refinarias da Petrobras”, ao ser indagado sobre o preço do GLP - o botijão de 13 kgs está saindo por mais de R$ 130 para o consumidor), voltou à mesma desculpa: a escalada é causada pelo transporte, a margem (bota margem nisso) dos revendedores e pelo “ICMS dos governadores”. Como se isso fosse novidade.
A cobrança de ICMS e tributos federais sobre os combustíveis existe há décadas. Quando vem uma escalada de alta de preços internacionais do barril de petróleo é assim. Desde começo de novembro de 2020, quando estava na faixa de US$ 37, e agora está em US$ 72, tivemos uma alta de 94%. A partir de dezembro, os preços subiram. Este ano, a alta passa de 44%. E se agrava com a atualização pela cotação do dólar (que voltou a subir). Tanto os preços internacionais quanto o dólar estão fora do alcance dos governadores.
Se antecipar à alta do dólar, que contamina os preços de insumos e produtos importados, bem como commodities agrícolas e minerais exportadas pelo país, é função do Ministério da Economia e do Banco Central. Se o Comitê de Política Monetária tivesse sido mais duro desde março (quando iniciou três movimentos de alta de 0,75 pontos percentuais da Selic – para 4,25% ao ano), o dólar teria recuado para abaixo de R$ 5. Como o Copom não fez, teve de passar a 1 p.p. a partir de agosto, dose a ser repetida em 22 de setembro (já se defende dose mais forte), com a inflação no limiar de dois dígitos.
Mas o governo também não soube administrar a crise hídrica (desenhada desde o 2º semestre de 2020, quando os setores industriais eletro-intensivos aceleraram a produção para exportar com o estímulo do dólar e foram esvaziando a água das usinas hidroelétricas) e agora está diante do impasse: para fugir ao racionamento (transferido para outubro ou novembro se São Pedro não der uma mãozona) só resta elevar os preços barbaramente para o consumidor. Um e outro são ruins para um governo que pretende ser reeleito.
Na alimentação diferença é ainda maior
Ilhado há quase três anos nos seus palácios (do Planalto e do Alvorada), certamente, o presidente Jair Bolsonaro há muito deixou de fazer compras no supermercado. E assim, também parece não perceber que entre o atacado (que são as plataformas das refinarias da Petrobras onde as distribuidoras vão comprar a gasolina, o diesel e o gás liquefeito de petróleo, ou o gás natural) e o varejo (que são os postos de combustíveis e revendedores de gás (entre os quais e o consumidor ainda tem a figura do atravessador, o miliciano ou traficante nas comunidades mais pobres) há uma enorme distância de preço.
Fui pesquisar hoje o preço de três produtos (tomate, bata inglesa e cebola). No Ceagesp de Ribeirão Preto (SP), o quilo do tomate era vendido a R$ 1,59. Já no Ceagesp de São José dos Campos, o preço era de R$ 4,30. E uma “news letter” do Supermercado Zona Sul, informava que hoje era dia de “feirinha” (quando os hortifrutigranjeiros estão mais baratos) e o quilo saía por R$ 4,99 (o tipo Carmem, ou R$ 7,99 o tipo italiano). Já a batata inglesa, vendida por menos de R$ 50 o saco de 50 kgs nas Ceasas, era vendido a R$ 4,99 o kg. E a cebola, ofertada a R$ 2,50 no ZS, podia ser comprada a R$ 1,50 no Ceasa-RJ.
Ou seja, nada mudou desde que o comércio saltou do tempo do escambo (troca de uma mercadoria por outra) pela praticidade da compra em moeda sonante. Ou nas atuais formas de pagamento. Só a ampliação da cadeia de intermediários é que aumentou. E os governadores, onde está a sua culpa?
Os impactos do choque elétrico
Na expectativa de que a Aneel divulgue hoje o novo valor da bandeira vermelha 2, após a reunião da Câmara de emergência na Energia (CREG), várias instituições financeiras e consultorias estão fazendo projeções do impacto na inflação.
A LCA Consultores calcula que com a elevação de quase 50%, de R$ 9,492 a cada 100 kWh para R$ 14,2, a partir de 01/09, o impacto no IPCA ficará ao redor 0,30 ponto percentual. A LCA já trabalha com cenário de inflação de 7,7% este ano, medida pelo IPCA. E o grande fator de pressão será a alta de 12,8% dos preços administrados (pelo governo).
Para enfrentar o dragão da inflação, a LCA estima que a Selic feche o ano em 8% (está atualmente em 5,25% ao ano) e se mantenha nesse nível em 2022.
Vida curta na CVM
Se não for reconduzido para novo mandato, a partir de 2022, o novo diretor da Comissão de Valores Mobiliários, o professor e especialista em ciências contábeis, Fernando Gaio Galdi, terá vida curta no colegiado da CVM. Aprovado em sabatina pelo Senado, foi nomeado nesta 3ª feira, 31 de agosto para cumprir, até 31 de dezembro de 2021, o mandato do ex-diretor Gustavo Gonzalez, que renunciou em 1º de março deste ano.
Mesmo com pouco tempo para se inteirar de processos que se acumularam na autarquia, sua chegada é bem-vinda por todos os que tiveram a carga de trabalho redobrada após a saída de Gonzalez.
Dos quatro diretores estatutários só dois estavam em atividade: a advogada, com passagem pelo BNDES, Flávia Perlingeiro, que tomou posse em março de 2019 e tem mandato até 31 de dezembro de 2023, e o também advogado Alexandre Costa Rangel, no cargo desde novembro de 2020 e com mandato até 31 de dezembro de 2024. Ainda resta uma vaga a ser preenchida.
Pirâmide de criptomoedas: a ponta do iceberg?
Este caso das pirâmides financeiras do ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, preso semana passada, em Cabo Frio (RJ), sob suspeita de comandar esquema de pirâmide com a promessa de rendimentos exorbitantes alavancados em criptmoedas, merece ser investigado para valer pela Polícia Federal e o Ministério Público do Rio de Janeiro.
A última pista, de que o ex-garçom, filiado à Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, fizera sucessivas doações de mais de R$ 72 bilhões à IURD pode configurar a ponta de um iceberg que sempre se suspeitou: a de que muitas igrejas e seitas religiosas (diante da falta de devassa de suas contas pela Receita Federal do Brasil) funcionam como lavanderias de dinheiro. Seus negócios se expandiram para os Estados Unidos e Inglaterra.
Ou seja, dinheiro da mais pecaminosa procedência sai com atestado de limpinho e puro após rápido spa nas dependências do pastor da hora. As igrejas evangélicas se tornaram uma potência econômica e política, atuando como os mais poderosos currais eleitorais. Sempre se suspeitou que sua riqueza não vinha somente do que era recolhido na passagem das sacolinhas durante os cultos diários ou pelo pagamento do dízimo mensal pelos fiéis.
Está na hora de separar o joio do trigo.
