Quando a força não pode com um vírus

O contágio não distingue fortes ou fracos, e o presidente e seus filhos e familiares são o melhor exemplo disso

Por Gilberto Menezes Côrtes

Presidente da nação mais poderosa do mundo, Donald Trump reconheceu, em entrevistas gravadas em março e abril, ao jornalista Bob Woodward, enquanto minimizava publicamente o poder do novo coronavírus, diante da capacidade americana, o poder da covid-19. Mas em vez de recomendar recolhimento e prudência aos 329 milhões de americanos, acenava com a volta à normalidade até a Páscoa.

Como se sabe, a Páscoa de 2020 foi das mais reclusas da história americana e quase seis meses depois a nação mais poderosa do mundo foi impotente para impedir que a covid-19 aniquilasse a vida de quase 200 mil americanos. Para haver uma ideia da grandeza, na guerra do Vietnã morreram pouco mais de 60 mil soldados americanos. O total é quase metade das baixas na segunda Guerra Mundial.

Há duas semanas, Trump, tentando animar seu eleitorado, soltou outra “fake news”, dizendo que haveria uma vacina no país contra a covid-19 antes das eleições de novembro. Diante das críticas a afirmação tão irresponsável, ressalvou na sexta-feira que espera que até abril haja vacinas para todos os americanos. De novembro a abril são seis meses. Entre a segunda quinzena de março, quando os Estados Unidos decretaram a pandemia após a OMS dar o alerta a todo o mundo, e a primeira quinzena de setembro, 185 mil americanos morreram. As taxas de contágio ainda são muito elevadas nas terras de Tio Sam e a chegada do outono na próxima semana pode dar novas forças ao vírus, se os americanos relaxarem nas medidas profiláxicas, como lavar as mãos, usar máscaras e álcool em gel. Há risco de uma recidiva.

Aqui no Brasil a situação, embora com redução de novos contágios no geral, ainda está longe de controle, para a volta às aulas sem risco. Temos quase 137 mil mortos, e podemos perder o segundo lugar no triste pódio das mortes para a Índia. O país de 1,38 bi de habitantes já nos superou em total de contágios - 5,4 milhões de pessoas - e mortes são quase 87 mil. A Índia acumula 84 mil casos em 24 horas, contra 4,5 milhões do Brasil, sendo 42 mil em 24 horas.

Estamos longe de baixar a guarda. As cerimônias em Brasília, na posse do ministro Luiz Fux como presidente do Supremo Tribunal Federal pelos próximos dois anos, e um casamento no fim de semana passado, geraram uma onda de contaminações que atingiram o próprio Fux e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), além de ministros e outras autoridades e pessoas presentes.

Mas o presidente Jair Bolsonaro, em duas ocasiões, na semana passada, emitiu sinais trocados. Depois de atuar como interino no Ministério da Saúde desde 18 de maio, o general Eduardo Pazuello foi empossado como ministro efetivo. O país já contabilizava 133 mil mortes, mas o presidente Bolsonaro voltou a usar o viés das “fake news” para dizer que se não fossem os governadores e prefeitos, bem como as secretarias estaduais e municipais, resistirem ä prescrição geral e irrestrita do coquetel cloroquina/azitromicina, o país teria ”tido pelo menos 30 mil mortes a menos”.

Trump já reconheceu a Bob Woodward que falava da boca para fora que o novo coronavirus era uma ”gripezinha”, e que “a cloroquina era eficaz”. Mas, mui amigo, na véspera da FDA declarar a ineficácia do medicamento e suspender seu uso, dado do balanço de risco, doou milhões de comprimidos para o Brasil do presidente Bolsonaro. Trump mente e diz bobagens porque está em feroz batalha por uma reeleição que parecia fácil e agora está bastante complicada.

Bolsonaro mal completou três quartos do segundo ano de governo. Não precisa usar “fake news”, como fez a torto e a direito na campanha. A próxima eleição é em 2022. Mas parece estar sempre no palanque, e como costuma ser rodeado por admiradores mobilizados, diz coisas sem o menor sentido.

Dizer que o Brasil não está pegando fogo é pura perda de perdigotos. O Brasil é quase um continente e evidentemente não está 100% devorado pelo fogo, assim como não estão todos os Estados Unidos. Nem toda a Califórnia ou a Costa Oeste. Mas são inegáveis os estragos em Oregon e próximo a San Diego. Isto em parques nacionais da nação mais poderosa do mundo.

No caso brasileiro, o governo Bolsonaro que tentou demolir a reputação do INPE entrou numa disputa inglória com a França e a Alemanha, as locomotivas da União Europeia, bloco com o qual o Brasil pretende fechar acordo de livre comércio, tentando negar as queimadas (posteriores ao desmatamento) para limpar áreas para pastos na Amazônia paraense e no pantanal matogrossense. É negar o óbvio, como os terraplanistas que insistem que a Terra não é redonda e o homem não foi à Lua.

As dimensões brasileiras são impressionantes. Um interessante mapa circulou esta semana na internet fazendo correlação do tamanho de alguns estados brasileiros com o espaço territorial de outras nações. O Amazonas, maior estado brasileiro, seria do tamanho da Mongólia. O Pará, segundo maior, equivale ao território de Angola. A Itália seria do tamanho do Maranhão, a França teria as dimensões da Bahia e a Espanha equivale a Minas Gerais. Já a Amazônia seria do tamanho de Mato Grosso do Sul. O estado de Mato Grosso, maior produtor agrícola do Brasil, é do tamanho da Venezuela. A área do Pantanal que está em chamas se espalha pelos dois estados. Mas não chega a ser uma Alemanha em chamas, como se faz alarde.

No ano passado, nesta mesma época, assim como as habituais queimadas que sucedem ao desmatamento legal ou ilegal de florestas na Amazônia, ocorreram incêndios no Pantanal brasileiro e na parte referente à Bolívia e ao Paraguai. A fumaça foi tal que deixou o céu de São Paulo escuro e uma chuva despejou uma água cinza (pela fuligem) sobre a Grande São Paulo. Ecologistas de plantão logo se apressaram a dizer que a fumaça era das queimadas da Amazônia e a notícia ganhou o mundo. Na época, escrevi alguns textos mostrando que seria mais correto atribuir a origem aos incêndios do Pantanal (comprovado este ano). Se a fumaça viesse da Amazônia, especialmente do Pará, seria notada antes em Goiânia e Brasília...

Bolsonaro contribuiu para o desencontro de informações ao discursar em Sinop (MT) na cerimônia de lançamento do plantio da safra2020/21. Para enaltecer os agricultores presentes e a dedicação às lavouras de soja, milho, algodão, feijão e arroz, que asseguram ao Brasil a liderança na produção, Bolsonaro abusou da demagogia e disse que “só os fracos ficavam em casa; os fortes, como os agricultores, garantiram o abastecimento do país”.

Meia verdade, os agricultores de grandes lavouras, ou de pequenas propriedades na agricultura familiar, trabalham em condições bem diversas de um empregado de fábrica, de supermercado ou de atividades no setor de serviços. Trabalham ao ar livre, com muito menor risco de contágio. E se não cuidarem da grande ou pequena lavoura, ou do gado, a vaca literalmente vai para o brejo. Não é questão de ser forte ou fraco, mas estar operando em ambiente mais ou menos suscetível ao covid-19. Os dois estados de Mato Grosso demoraram a sofrer o contágio, enquanto todos estavam no campo. Bastou entrar na fase na colheita e da vinda de caminhões de regiões já infestadas para ambos apresentarem taxas crescentes de contágios e mortes.

Estou escrevendo este artigo do meu sítio em São José do Vale do Rio Preto (RJ), onde não vinha desde 9 de março. A avicultura e as pequenas lavouras de hortaliças e legumes, a região é grande produtora de chuchu e caqui, que começam a florir. Com pouco mais de 20 mil habitantes, foi o município fluminense que deu a maior votação proporcional a Bolsonaro (84%). Mas nem por isso seus "fortes" eleitores trabalhando de sol a sol deixaram de ser contaminados. Foram mais de 15 mortes (um índice alto comparado ao município do Rio de Janeiro). E uma das causas, assim como os agricultores de Teresópolis, foram as idas e vindas ao Ceasa-RJ, em Irajá, para a venda da produção. O contágio não distingue fortes ou fracos, e o presidente e seus filhos e familiares são o melhor exemplo disso. É preciso estar atento e forte. E tomar as medidas profiláxicas, como as máscaras.