Se vier o pior

Por

Eis-nos aqui, para a eleição do cheque em branco e do salto no escuro, do ingresso num trem-fantasma com destino incerto. Eis-nos aqui, encerrando a disputa em que uma parte do Brasil abraçou o rancor e outra jogou-se no esforço para salvar a democracia. Em que faltou, a importantes líderes do campo democrático, a tal grandeza política para dar a mão ao adversário de ontem, pondo de lado interesse, mágoa ou conveniência, por estar em jogo o destino da Nação. Ciro Gomes e Fernando Henrique Cardoso não são os únicos mas serão os mais lembrados pela omissão, se vier o pior.

Nestes dias finais, o candidato Bolsonaro exagerou na revelação de seu pendor revanchista e autoritário. Ouvindo coisas como banimento de adversários e fechamentos de tribunais, eleitores refluíram para Haddad, que já deixou de ser candidato do PT para encarnar a resistência democrática. Cresceu a multidão de anônimos lutadores, o mutirão do vira-voto, e a consciência de que jogar fora a democracia numa eleição será um crime coletivo imperdoável. Mas a eleição de Bolsonaro continua sendo mais provável, embora não deva mais ser de lavada. E isso, como disse Lula, como sabem todos, garantirá uma correlação de forças menos favorável à tirania. Haverá oposição.

Ele chegou até aqui sem apresentar um programa mínimo de governo, e não foi por causa da facada. Sabotou o debate por “estratégia”, a do cheque em branco. Engambelou eleitores com odes antipetistas, promessas de revanchismo, moralismo e uso da força, e uma tempestade de fake news via WhatsApp. Tergiversou sobre política econômica, política externa, questão ambiental e tudo o mais, embora deixando claro que mexerá nos direitos, que para ele e o mercado que o apoia, são estorvo. Vai se entregar o país ao desconhecido por ódio ao PT, que cometeu erros, sim, mas não crimes contra a democracia. Lula, que deixou a Presidência com mais de 80% de aprovação, poderia ter aprovado a emenda que lhe permitiria disputar mais uma reeleição.

Num país com mais amor à democracia, a ameaça Bolsonaro teria gerado uma ampla coalizão para barrá-lo. Aqui, passado o primeiro turno, foram todos descansar ou buscar aproximação com Bolsonaro. Ficaram com o PT apenas o PC do B, o PSB, o PSOL, o PCO e partidos menores. Marina Silva deu apoio crítico. No dito centro, todos lavaram as mãos, mas a omissão de FHC calou mais fundo, inclusive lá fora. E para não deixar dúvidas sobre sua negação de apoio a Haddad, foi às redes sociais desmentir notícias de que teria feito o contrário.

Poucos lustraram tanto a biografia como Joaquim Barbosa, algoz dos petistas no mensalão, herói das tribos antipetistas, ao declarar apoio a Haddad. Meia dúzia de tucanos também fizeram o que teria feito Mario Covas, se vivo fosse.

Diferentemente de FH, que já escreveu a biografia, Ciro Gomes pode pagar preço alto pelo que não fez. Voltando da Europa, ele espantou até aliados com a franqueza calculista de seu pronunciamento de ontem pelo Facebook: Não iria tomar partido “por uma razão muito prática que eu não quero dizer agora”. Seja ela qual for, não servirá de atenuante quando as liberdades democráticas forem confiscadas, quando a violência começar a campear, quando o arbítrio arreganhar os dentes. E ainda que nada disso aconteça, Ciro carregará esta marca.

Deixemos de falácias nesta hora. Uma diz que Bolsonaro, se eleito, não implantará a tirania e o obscurantismo porque as instituições podem contê-lo. As instituições, coitadas, já foram muito esgarçadas pela prolongada crise. Os partidos foram triturados, o Congresso foi desmoralizado pela Lava Jato e tentou escapar aprovando o impeachment duvidoso de Dilma. O Judiciário passou a fazer política ou a ceder ao tropel autoritário. Bolsonaro perseguirá adversários e movimentos sociais, haverá repressão e reação. Se a convulsão se instalar, ele pode pedir ao STF o Estado de Sítio ou o de Defesa. Assim também, e não só com quartelada, enterra-se uma democracia.