Academia Nacional de Medicina promove Jornada de Cirurgia Oncológica

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A Academia Nacional de Medicina promoveu a Jornada de Cirurgia Oncológica, organizada pelos Acadêmicos Hiram Silveira Lucas e José J. Camargo. A reunião foi importante para o entendimento geral dos avanços e conquistas nas cirurgias relacionadas ao câncer, de maneira que a jornada contou com a contribuição de renomados pesquisadores médicos, como os Acadêmicos Ricardo Lopes da Cruz, Paulo Niemeyer Filho, Fernando Pires Vaz e o Prof. Eduardo Akaishi (USP). 

Iniciando a discussão, o Prof. Dr. Eduardo Akaishi ministrou uma palestra sobre cirurgia alargada no câncer abdominal. Ele alertou os ouvintes que se tratando de um tema altamente desafiador e controverso, deve-se dar mais importância para os benefícios que um tratamento ou uma cirurgia podem trazer para o paciente, do que para a técnica utilizada.

Como grande avanço, ele salientou o fato de que muitas vezes não se precisa mais amputar membros acometidos de câncer, como no passado. Hoje é possível tratar tumores com encurtamentos de membros, retirando-os e preservando as articulações e nervos.

Além disso, o Dr. Akaishi destacou como recurso atual de combate a problemas oncológicos a prática de tratamentos multidisciplinares, isto é, a análise conjunta de casos complexos, que demandam uma equipe de médicos: um cirurgião, um oncologista clínico, um radioterapeuta, um patologista, um anestesiologista, um enfermeiro, um fisioterapeuta, além de outros assessores que completam esta "família", como responsáveis por cuidados paliativos, grupo de dor, uma nutricionista, um fonoaudiólogo, um psicólogo e um assistente social.

Com relação a cirurgias complexas e de risco, o Dr. Akaishi delineou a evolução da discussão sobre aspectos bioéticos desses casos ao longo da história. Segundo ele, bioética é o estudo das relações das ciências biológicas, da saúde, filosóficas e do direito. O objetivo dessa análise é garantir harmonia entre as vidas humanas, animal e ambiental – não consensuais.

Em termos de bioética, os parâmetros mudam de acordo com o momento da história, do contexto e da cultura em questão. As discussões sobre bioética, como sabemos, se intensificaram durante as Guerras Mundiais, quando ocorreram muitas experimentações de práticas em casos extremos.

O Prof. José J. Camargo, Membro Titular da ANM e médico da Santa Casa de Porto Alegre, discorreu sobre tumores de pleura. Segundo ele, dentre os tumores primários, os tumores da pleura são extremamente frequentes e, o mais relevante do ponto de vista epidemiológico é o mesotelioma difuso maligno.Desde a década de 50, se estabeleceu uma relação de sua ocorrência com a exposição ao asbesto (amianto).Apesar de proscritas as fibras mais oncogênicas, ainda é uma doença em expansão.Segundo o Acad. Camargo, a doença é mais prevalente em países industrializados eum problema que ele apontoucomosubdiagnosticadono meio médico.

A maioria dos pacientes morrem de invasão direta pelo tumor e falência respiratória, sendo que os tumores com extensão infradiafragmática podem resultar em morte por obstrução intestinal.Outras causas de morte incluem arritmias e falência cardíaca causada por invasão tumoral.

Em seguida, o Acad. Ricardo Lopes da Cruz contribuiu para a discussão sobre os avanços em cirurgia oncológica discorrendo sobre grandes reconstruções na cirurgia do câncer da face. Segundo ele, quando se fala em “reconstrução” no tratamento do câncer, entende-se que a doença de base tenha sido adequadamente tratada.Existe uma tríade: curar a doença, garantir a função do órgão e, por último, possibilitar uma estética aceitável.

No que diz respeito aos desafios da condução de uma reconstrução cirúrgica diante de um câncer de face, o Dr. Ricardo Cruz destacou os seguintes tópicos: o estado geral do paciente; o estado psicológico do paciente; os efeitos nocivos da radioterapia; os problemas de cobertura cutânea e mucosa; os maus resultados com implantes e/ou próteses.

Quando a cirurgia é o tratamento escolhido para recuperar um segmento acometido de câncer, pergunta-se qual será a melhor estratégia de reconstrução?A Medicina evoluiu muito e hoje é possível fazer reconstruções faciais, da calota craniana, da região frontal e supercílio, do nariz, da orelha, da região orbito-palpebral, da maxila e palato, do lábio, da mandíbula e do assoalho da boca.

Como alternativas à cranioplastia, ele colocou enxertos como tela de titânio, cimento de hidroxiapatita, retalhos de pericrânio ou mesmo a combinação dos métodos.

Segundo ele, o que ocorre é que em alguns casos, pode ser que seja melhor poupar o indivíduo de ser submetido a múltiplas cirurgias reconstrutivas, pois o câncer em si já é muito doloroso. Em vez de vivenciar a complexidade de uma reconstrução facial, pode ser que o paciente opte por próteses bucomaxilofaciais implanto suportadas.

Sendo assim, para o Acad. Ricardo Cruz, no que diz respeito à reconstrução no câncer da face, deve-se definir se há indicação de reconstrução esquelética, considerar o estado clínico do paciente, os riscos do tratamento prévio pelas irradiações, a indicação de transplantes microcirúrgicos, utilizar osteossínteses através fixação interna rígida, e também considerar os benefícios da reconstrução protética implanto-suportada.