Após casos no Nordeste, campanha de vacinação busca eliminar sarampo do país

Nos últimos dois anos, 675 casos da doença foram identificados em Pernambuco no Ceará

Por Rafael Gonzaga*

Neste sábado (8), a Secretaria de Estado de Saúde do Rio promove a primeira etapa da Campanha Nacional de Vacinação contra o sarampo e a poliomielite. A campanha foi lançada no dia 28 pelo Ministério da Saúde e a expectativa é a de que mais de 12,7 milhões de crianças sejam vacinadas até o dia 28 de novembro. Neste sábado, portanto, acontece a primeira etapa de mobilização nacional, enquanto que a segunda acontecerá no dia 22. A poliomielite já está erradicada do Brasil – o último diagnóstico de pólio no Brasil foi realizado no ano de 1990. O sarampo, por outro lado, tem dado algum trabalho nos últimos anos por conta, principalmente, de casos no Ceará e em Pernambuco.

A meta da Campanha Nacional de Vacinação é a de atingir uma cobertura vacinal no país inteiro de 95% do público-alvo, ou seja, crianças de seis meses até os cinco anos no caso da vacinação contra a poliomielite e de um ano a até os cinco no caso da vacina contra o sarampo. A vacina que combate o sarampo é a tríplice viral, que garante a proteção ainda contra caxumba e rubéola. O Ministério da Saúde distribuiu 17,8 milhões de doses da vacina oral poliomielite (VOP), em gotas, e 12,5 milhões de doses da vacina tríplice viral.

Durante os anos de 2013 e 2014, ocorrências de sarampo voltaram a ser identificadas dentro do Brasil, todas elas relacionadas com estrangeiros contaminados pela doença. Nesses últimos dois anos, foram 224 casos de sarampo em Pernambuco e outros 451 no Ceará. O Ministério da Saúde ressalta que nenhum dos casos era autóctone: os pacientes com sarampo eram pessoas que se contaminaram fora do país ou pessoas que tiveram contato com esses viajantes. Em 2013, outros poucos casos pontuais teriam sido também identificados na Paraíba, em São Paulo, em Minas Gerais, em Santa Catarina e no Distrito Federal.

De acordo com o infectologista pediátrico Márcio Nehab do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), a cobertura vacinal no Brasil atualmente é excelente, o único problema que o Ministério da Saúde viria enfrentando atualmente seria a questão do controle dos vacinados, que não é feito de forma individual. “Nós estamos livres de casos autóctones desde 2000, mas a gente tem visitantes de vários outros países sem que se possa ter a certeza da imunização. Eles podem chegar aqui ainda no período de incubação e trazer a doença para pessoas que não são vacinadas, daí a importância de estar sempre reforçando a necessidade da vacinação”, conta.

Em fevereiro deste ano, a Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, capital do Ceará, confirmou um novo surto de sarampo atingindo principalmente crianças com menos de um ano. Na época, a Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo chegou a fazer um alerta à população paulista que pretendia viajar para o Nordeste, para que tomassem a vacina contra o sarampo pelo menos 10 dias antes de viajar.

Segundo Nehab, o motivo principal da Campanha Nacional de Vacinação é imunizar as crianças com algum atraso de vacinação e também as crianças que os pais declaram estar com o calendário de vacinação em dia, mas que não estão. “A cobertura vacinal do Brasil, embora excelente, pode possuir locais onde a cobertura não esteja tão ótima assim. Hoje em dia, a primeira dose é feita com um ano, na vacina tríplice viral que combate não só o sarampo, mas a caxumba e a rubéola. A segunda dose vai ser feita, então, quando a criança tiver um ano e três meses”, explica.

Apesar de o foco desta campanha de vacinação ser apenas crianças, o infectologista pediátrico explica que os casos de sarampo podem ser graves tanto em adultos quanto em crianças. Segundo o médico, todo adulto que não foi vacinado durante a infância deve receber as duas doses de vacina. Caso ele não tenha certeza se foi ou não vacinado, o médico recomenda que ele tome uma dose isoladamente. “No caso do sarampo, não existe um tratamento específico, a gente trata sintomaticamente. O quadro pode apresentar tosse, conjuntivite, exantema, febre alta, manchas dentro da boca, entre outras coisas. É um quadro muito sério, onde o paciente fica muito debilitado. Vale lembrar que o intuito da vacinação deste fim de semana não é o de vacinar adultos, só crianças até cinco anos”, aponta.

O vírus do sarampo

Altamente contagioso, o sarampo é considerado uma doença viral aguda grave e a única forma de prevenção é através da vacina. Os sintomas mais comuns da doença são quadros de tosse, febre alta, coriza, manchas avermelhadas, e conjuntivite. O sarampo pode ser transmitido de pessoa a pessoa, através das secreções que são  expelidas pelo doente quando ele tosse, fala ou mesmo respira. A gravidade da doença é ampliada por conta de possíveis complicações infecciosas. A doença é especialmente mais grave quando atinge crianças desnutridas ou menores de um ano.

De acordo com o infectologista pediátrico Márcio Nehab, o sarampo é muito grave não só pelas próprias características do vírus em si, mas também pela queda da imunidade transitoriamente. “O vírus em si à vezes, dependendo dos recursos disponíveis, pode causar taxas de 30% de mortalidade. Quanto à imunidade, o paciente de sarampo fica com ela debilitada e isso pode causar complicações como pneumonia, otite média, meningite. Ou seja, além de combater o vírus, o paciente acaba tendo que combater também outras complicações diretas do sarampo”, explica.

Dentro do Brasil, os últimos casos de contaminação autóctone de sarampo aconteceram em 2000. Desde então, todos os casos que foram registrados eram ou importados, ou relacionados à importação. No mundo todo foram registrados 160 mil casos da doença em 2014.

*Do programa de estágio do JB