Pesquisas recentes questionam existência da TPM

Por Da Agência Uerj de Notícia Científicas*

Irritabilidade, choro fácil, ansiedade e depressão. Esses são alguns dos sintomas comumente associados à famosa TPM (Tensão Pré Menstrual), período que surge entre dez e quatorze dias antes da menstruação, e que dura de três a sete dias. Mas a síndrome que tanto incomoda as mulheres pode ser apenas um mito. 

Segundo a doutora em Saúde Coletiva da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Miriam Oliveira, existem mais de duzentos tipos diferentes de sintomas relacionados à TPM. Eles se caracterizam por surgirem de forma cíclica antes da menstruação, diminuindo e desaparecendo ao final do ciclo. Se a mulher utilizar métodos contraceptivos "anovulatórios" como a pílula, por exemplo, a TPM não poderá ser diagnosticada. 

De acordo com o professor adjunto de Ginecologia da Uerj, Dr. Marco Aurelio de Oliveira, apenas 5% das mulheres apresentam síndrome de tensão pré-menstrual grave. Esse percentual, porém, é variável. “Se considerarmos qualquer intensidade de TPM, incluindo as leves, mais da metade das mulheres se queixam do problema. Por isso, muitas vezes ela é considerada “normal”, já que a maioria possui algum grau de TPM, em algum momento da vida”, explica. 

Pesquisas não confirmam relações dos sintomas com alterações hormonais 

Miriam revela que apesar de as pessoas acreditarem que a TPM é causada diretamente pelas oscilações hormonais (progesterona e estrogênio, hormônios ditos ‘femininos’), pesquisas biomédicas mais recentes não confirmam essa hipótese. “Parece não haver qualquer evidência que indique que mulheres com TPM experimentem um desequilíbrio, excesso, déficit ou queda mais rápida nos níveis de estrogênio e/ou progesterona antes das menstruações”, explica a pesquisadora em Saúde Coletiva. 

O mau humor, o nervosismo e a hipersensibilidade emocional que a maioria das mulheres afirma ter durante certo período do mês são, na verdade, uma construção cultural complexa. De acordo com a pesquisadora, essas reações não são um “fato biológico” universal e a-histórico. “Com certeza há interesses importantes que interferem direta ou indiretamente na promoção equivocada da TPM como uma ‘patologia cientificamente comprovada’ que atingiria praticamente todas as mulheres em idade reprodutiva”, afirma. 

Para Miriam, a TPM “‘existe’ enquanto uma construção complexa que inclui, para muito além da biologia, aspectos psicológicos, culturais, econômicos, sociais e políticos”. Ela acredita que a TPM não pode ser reduzida a um fato exclusivamente biológico, determinado por causas fisiológicas, hormonais, ou mesmo neuroquímicas. 

A TPM como uma ferramenta de controle sobre a mulher 

A síndrome seria um momento de permissão à mulher expressar raiva, ter explosões, crises e tudo o que é considerado “inconveniente para uma boa mulher”. Segundo Miriam, a TPM estaria em parte associada ao controle social sobre a mulher. “A TPM é utilizada para minar a confiabilidade das mulheres (quem confiaria numa pessoa que uma vez por mês fica irracional, descontrolada, instável, dependente de seus ‘hormônios’?)”. 

De acordo com Miriam, as próprias mulheres têm representado um papel importante na promoção da crença na TPM, pois algumas encontram na síndrome uma estratégia para lidar com dificuldades nas suas vidas. Para ela, que também é autora da tese A construção da síndrome pré-menstrual, talvez essa não seja a melhor opção: “A TPM é um atraso na verdadeira emancipação das mulheres. O prejuízo provocado por ela não se dá apenas para as mulheres, mas também para os homens, que na maioria das vezes são considerados as ‘vítimas’ de suas crises’”. 

Nem toda mulher sofre de TPM 

A pesquisadora admite que continua a estudar o tema, porém adianta que tem observado que a TPM é mais frequente e mais intensa em mulheres mais dependentes, menos autônomas dos pontos de vista econômico, profissional e psicológico e que esperam de seus companheiros a solução de todos os seus problemas, supondo que a sua felicidade depende do outro, diz Miriam. 

Para a doutora em Saúde Coletiva, é humanamente impossível alguém satisfazer completamente outra pessoa (exceto de forma imaginária), e injusto colocar no outro a responsabilidade por si mesma. “A TPM seria uma das respostas tristes às questões existenciais com as quais todos nós somos confrontados, incluindo diferenças culturais de gênero que incidem sobre cada um de nós”, encerra Miriam. 

Como amenizar os sintomas 

Apesar da afirmação de Miriam, Dr. Marco Aurelio de Oliveira, chefe da Unidade Docente Assistencial de Ginecologia do Hospital Pedro Ernesto (Hupe), acredita que a relação entre hormônio e TPM de fato existe. Ele atribui às mulheres com TPM maior sensibilidade às variações hormonais, adquiridas possivelmente por questões genéticas. Os sintomas podem se estender a questões físicas como dor nas mamas, aumento abdominal, edema, entre outros.

Como alternativas para amenizar os sintomas da TPM, o médico do Hupe recomenda: “Exercícios aeróbicos e técnicas de relaxamento (ioga e meditação, entre outras), restrição do sódio e evitar excesso da cafeína podem ser úteis. As vitaminas (A, E e B) podem ser favoráveis para algumas mulheres, assim como suplementos vitamínicos e o óleo de prímula”. 

O professor de Ginecologia da Uerj acredita que o mito em torno da TPM talvez seja causado pela estigmatização da mesma por parte da sociedade, caracterizando a síndrome como vilã. “Isso vem de longa data. O termo histérica (mulher "desequilibrada e descontrolada") vem da palavra histeros, que significa “útero” em grego. Existe também a face oposta da TPM, ou seja, o uso dela pela mulher como responsável por atos impensados”, afirma Marco Aurelio de Oliveira. 

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