WCG: cyberatletas brasileiros sofrem sem patrocínio e com aposentadoria precoce

Por Jorge Lourenço

A vida de um cyberatleta parece o sonho de qualquer gamer: transformado em profissão, o hobby garante o sustento com um trabalho sempre divertido. De quebra, os jogadores profissionais ainda viajam por todo o Brasil e pelo mundo para disputar as principais competições de cada categoria, como aconteceu neste fim de semana, no World Cyber Games, em São Paulo. Na teoria, uma vida dos sonhos. Na prática, é bem diferente.

Sem qualquer apoio do governo brasileiro, os pro-gamers lutam para conseguir patrocínio e, muitas vezes, precisam bancar algumas viagens do próprio bolso.  Isso sem contar a dificuldade em conciliar a vida profissional ou os estudos com a atribulada agenda de torneios. Atual campeão brasileiro de Fifa 2011, o mineiro Samuel Liberato, de 21 anos, está prestes a abandonar a carreira, por exemplo. Apesar de ser considerado um dos melhores do mundo no game, a dificuldade em conciliar o esporte com a vida profissional pesou. 

"Eu estou no oitavo período de Engenharia de Produção Civil, mas não pude estagiar muito graças a essa carreira. Ninguém vai te liberar por dez dias para jogar um campeonato de videogame, não tem como", explica Samuel, que ficou em segundo lugar da etapa nacional do World Cyber Games. "Minha família sempre me apoiou, mas também deixaram claro que o ideal era escolher uma delas e apostar nisso. Diferente da Coreia do Sul ou dos Estados Unidos, é impossível viver de esporte eletrônico no Brasil. Esse deve ser meu último ano jogando, vou parar em dezembro".

Como a média das premiações e dinheiro dos patrocinadores dificilmente fornece uma renda completa para esses jogadores. Profissionais de Fifa 2011 que jogam em sites de aposta chegam a tirar quase R$ 2 mil por mês. Nos Estados Unidos, o salário mensal médio de um cyberatleta de ponta patrocinado é de US$ 10 mil, o equivalente a R$ 24 mil. No caso dos melhores jogadores, as cifras são ainda maiores.

As premiações e a média salarial variam de acordo com o jogo. Fifa 2011 entrou no circuito do esportre eletrônico há pouco tempo, por isso ainda há poucas competições para seus jogadores. É diferente do clássico jogo de tiro Counter-Strike, que tem nada mais do que dez competições mundiais de peso. Para o campeão brasileiro e vencedor da etapa nacional de Starcraft 2 na WCG, Paulo César Cardoso, os prêmios apenas complementam a renda.

"O bom é que você viaja o mundo de graça nessas competições. Aqui na WCG, a Samsung nos trouxe e organizou um grande campeonato, por exemplo. Conheci Estados Unidos, Europa e Ásia graças aos campeonatos de Starcraft, mas ver o jogo como vida é algo que não pode passar pela cabeça de um gamer brasileiro. No caso de Starcraft, nosso lucro vem das premiações", explica o jogador.

Jogadores de ponta no cenário nacional, os dois confessam que a rotina de um cyberatleta faz com que alguns dos seus jogos favoritos percam parte da graça. Contrariando a ideia de um autêntico gamer, Samuel Liberato confessa que só tem jogos da série Fifa em casa.

"Você joga até enjoar e, quando já está de saco cheio, precisa continuar jogando. É meio chato mesmo, mas a rotina de treinamentos, pelo menos no meu caso, não é tão intensa. Jogo umas duas partidas por dia, às vezes menos. Quando algum campeonato se aproxima, aí sim reforço para umas seis horas por dia. Mas é chato. Chega uma hora em que você não aguenta mais jogar. Eu gosto da competição, das viagens e das pessoas. Mas o jogo, em si, enjoa", conta Samuel. Para Paulo César, a situação no Starcraft não é muito diferente.

"Geralmente eu treino uma duas horas por dia, sempre jogando online. Adoro essas competições, mas às vezes é chato. Para manter um patrocinador, você precisa aparecer um número mínimo de vezes em campeonatos. Tem hora que você não quer jogar, mas precisa ir  para manter o patrocínio e expor a marca", diz o campeão brasileiro, que relata um diferencial nos esportes eletrônicos: a intimidade com os rivais. "Como nós sempre jogamos online, todo mundo se conhece. Por isso, a gente já sabe quem são os favoritos e quem deve vencer. Claro, os jogadores de Starcraft mais talentosos são aqueles que surpreendem os adversários, mas todo mundo se conhece bem.

Coreia do Sul como sonho de consumo

Quando se fala em ligas profissionais de jogos eletrônicos, qualquer cyberatleta tem na ponta da língua o nome do país que mais respeita o esporte: a Coreia do Sul. No país asiático, os campeões nacionais são tratados como ídolos, as partidas de Starcraft são televisionadas para todo o país e o governo local financia os campeonatos. Com premiações que chegam aos US$ 500 mil, os torneios de jogos eletrônicos competem de igual com o futebol e o beisebol.

"É algo que chega a ser difícil de conceber. Quando fui ao campeonato mundial de Starcraft, na Coreia do Sul, um taxista já de meia idade viu que éramos brasileiros e puxou uma conversa conosco. Quando falamos do jogo, ele veio logo nos perguntar qual era a nossa raça e nossas estratégias. É algo que você jamais imaginaria acontecer no Brasil", conta Paulo César. "Lá é outro nível. Os atletas vivem disso, jogam quase sempre oito horas por dia. É bem diferente da nossa realidade".