Especialistas condenam aditivo alimentar que deixa crianças com o paladar viciado
Em um país em que mais da metade da população apresenta sobrepeso, impulsionar as pessoas a comerem cada vez mais não parece ser a melhor escolha. Este cenário ainda consegue piorar: os brasileiros começam a trocar o arroz e o feijão por salgadinhos e refrigerantes, informaram os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares, divulgados na última quinta-feira (28) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo especialistas, quem paga o pato por essa mudanças de hábito são as crianças. Para a nutricionista Patrícia Cunha, os pais começam a optar pelos industrializados porque são mais práticos, sem saber que podem estar prejudicando a qualidade da alimentação dos filhos.
“Alimentos industrializados, como o macarrão instantâneo e os biscoitinhos têm glutamato monossódico, aditivo alimentar que estimula o aumento do consumo” atesta. “Ou seja, na nossa sociedade, a criança fica com o paladar viciado, e cabe aos pais mudar seus hábitos alimentares”.
Para a nutricionista Rosane França, o glutamato monossódico é perigoso porque torna os produtos industrializados e pouco nutritivos mais saborosos, fazendo com que as pessoas excluam alimentos como frutas e legumes do cardápio.
“Se você come algo com o aditivo, na hora de comer uma fruta, ela vai parecer completamente sem graça”, conta.
O glutamato monossódico, realçador de sabor largamente utilizado pela indústria de alimentos, é alvo de antigos ataques de profissionais que trabalham com a saúde alimentar. Segundo a médica nutróloga Luciana Carneiro, os efeitos do excesso de sódio presente no composto podem provocar “sérios danos em relação à pressão arterial”.
“A Ajinomoto foi uma das primeiras indústrias a trazer o glutamato para o Brasil”, conta. “Tanto é que muitas pessoas fazem uma brincadeira com o slogan da marca: ‘Os sabor que mata’. É um exagero, mas o glutamato pode provocar hipertensão porque tem uma quantidade de sódio muito grande”
Segundo Marcelo Machado, engenheiro de alimentos da Ajinomoto, a hipótese de que o glutamato monossódico possa fazer mal às pessoas é um mito muito comum entre os médicos. Segundo ele, o principal benefício da substância é melhorar a aceitação do público a determinados alimentos, já que os tornaria “mais saborosos”.
“O glutamato é o aditivo alimentar mais estudado nos últimos 40 anos, e muitos estudos mostram que ele é fundamental para a saúde humana”, rebate Marcelo. “Muitos dizem que é uma substância artificial, mas ele está naturalmente presente em determinados alimentos, como no tomate e nas carnes. Além disso, acredita-se que o aditivo possa, inclusive, reduzir o teor de sódio dos alimentos.”
Apesar disso, Rosane França explica que cerca de 70% do realçador de sabor é composto de ácido glutâmico, aminoácido que provocaria uma superexcitação das células, o que poderia levar a danos no cérebro. Segundo Sérgio Schmidt, neurolofisiologista da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), há hipóteses de que o ácido glutâmico possa causar intoxicação das células, mas isso não está necessariamente associado ao glutamato monossódico.
“O ácido glutâmico é um neurotransmissor, por causa disso, existe essa associação com ao glutamato, mas que ele causa mal não é verdade porque o glutamato é avidamente absorvido pelo intestino” explica. “Além disso, a dose prejudicial de ingestão do glutamato teria que ser de cinco a seis vezes maior do que a do sal comum”.
Apesar disso, a nutricionista funcional Luciana Harfenist cita pesquisas que confirmam a relação entre o realçador de sabor e a hiperatividade infantil e a enxaqueca. A especialista afirma, no entanto, que o maior desafio é reeducar a alimentação das pessoas que acabaram ficando com o paladar viciado no glutamato.
“As crianças são as maiores vítimas disso. Quase todos os biscoitos salgados infantis e produtos industrializados voltados para elas têm glutamato. Além disso, impulsionar as pessoas a comerem mais faz com que elas assimilem menos legumes e frutas”, disse a nutricionista, que é coordenadora de um programa de pós-graduação em nutrição ortomolecular.
Ainda assim, o engenheiro Marcelo Machado justifica a uso do realçador de sabor pela indústria de alimentos: “Se a gente produz um alimento saudável, mas que não é saboroso, as pessoas não vão consumir.”
