O verão da sensação térmica

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Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil

RIO - A expressão mais falada, sentida e até suada neste verão carioca usando obviamente a licença poética é sensação térmica. Há até bem pouco tempo, fazia 40 graus e ficava por isso mesmo. Agora não, os termômetros marcam os mesmo 40 graus, mas vem a tal expressão escaldante: sensação térmica, 50 graus. Mas, afinal, o que é isso? O que é a sensação térmica? Ela só virou moda para fazer a gente suar mais ou (tentar) comprar um novo aparelho de ar-condicionado?

Pior que não. A sensação térmica é um fenômeno que é medido cientificamente. Ela depende basicamente de uma combinação de dois fatores. No caso, o calor provocado pela radiação solar e o relacionado à umidade relativa do ar. Quando eles se somam, sai de baixo, porque não vai haver refresco que dê conta.

Se ao suar, a umidade relativa do ar estiver alta, o suor nem vai secar. Então a sensação de desconforto é maior diz a meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Marlene Leal.

Sem sossego

E a sensação térmica não escolhe hora para perturbar o sossego do carioca. Na segunda-feira passada, às 5h da matina, a umidade relativa do ar medida pelo Inmet estava em 100%. Resultado: embora os termômetros marcassem 28 graus, a sensação térmica era de 35 graus.

Temos observado um índice alto de umidade relativa do ar de madrugada e de manhã neste verão no Rio, por volta de 70%, 80% e 90% diz Marlene Leal.

Se o céu estiver limpo, a umidade relativa vai caindo, pois a água dispersa na atmosfera evapora, ou vai secando, diz a meteorologista. Mas se estiver nublado, o ar fica úmido o dia inteiro, o vapor não se perde para o espaço.

Para se calcular o percentual da sensação térmica, existe uma tabela algorítimica. Os dados de temperatura ambiente e umidade relativa são cruzados para se chegar ao resultado.

Neste verão, a sensação térmica chegou a 50%, embora a temperatura máxima registrada pelas estações do Inmet tenha sido de 41,5 graus.

Aliás, quem manda mesmo é a umidade do ar. Vejamos exemplo. No dia 4 de fevereiro, os termômetros do Inmet marcaram 41,5 graus, o recorde da temporada. Naquele dia, a umidade estava a 36% e a sensação térmica foi a 50 graus. No dia seguinte, embora a temperatura tenha caído para 39,1 graus, a umidade estava a 46%, com mesma sensação de 50 graus, apesar de dois graus a menos no termômetro.

Não bastasse umidade do ar e radiação solar, há ainda outro ingrediente que se soma para piorar a sensação térmica: o calor emitido pelo solo. Segundo a meteorologista, a radiação solar vai aquecendo o solo, ainda mais o solo urbano, e as duas fontes térmicas vão se somando.

Geralmente o pico de calor, na combinação da radiação solar com o calor emitido pelo solo, se dá às 15h (16h, no horário de verão) explica a meteorologista.

Suor, rubor e moleza: manifestações de corpo e alma

Já que se trata de uma sensação, como ela se manifesta no corpo, o templo de nossos sentidos? De um modo nada agradável, decerto. Os vasos da periferia do corpo se dilatam, causando rubor na face e em outras partes do corpo. Os poros também se dilatam, para que ocorra a perda de calor. Fora o suor que encharca a pessoa. Depois vem o torpor, aquela moleza e vontade de não fazer nada.

O corpo já tem uma temperatura interna e o calor externo acaba aumentando a sensação térmica. Se o ambiente está fazendo 40 graus, a temperatura do corpo eleva esta sensação para 42 graus diz o médico da Universidade Federal Fluminense, João Franzen.

Segundo o médico, o risco maior do calor intenso é a desidratação, especialmente em crianças. E aí não há jeito, o negócio é se hidratar. Mas não há uma fórmula dizendo quantos litros a pessoas precisa beber.

Tem que ouvir os sinais do corpo. Se a pessoa que estiver caminhando no calçadão de Copacabana começa a suar muito ou fica com muita sede, está na hora de beber uma água de coco, por exemplo diz.

A água de coco tem outra vantagem: contém potássio, que é perdido na transpiração e que ajuda no desempenho muscular. Até mesmo o refrigerante normal, sem ser diet ou light, tem lá sua eficácia.

No calor se gasta muita energia, então se perde açúcar. Neste sentido, o refrigerante repõe a glicose diz o doutor. (M.G.)