Estudo cria parâmetros para avaliar condições sanitárias
Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - A ciência está invadindo a praia no Rio de janeiro. Ou melhor, a areia. E é por uma causa nobre. Muitos cariocas não sabem, mas quando querem saber se as praias estão próprias ou impróprias ao banho, as únicas informações disponíveis são sobre a qualidade da água. Nenhum órgão ambiental monitora a qualidade da areia. E a situação por ali não é das melhores. É o que mostra pesquisa que está sendo desenvolvida por cientistas da Fiocruz.
O estudo da Fiocruz pretende criar parâmetros científicos de avaliação da qualidade sanitária das areias das praias. E assim, oferecer às autoridades ambientais instrumentos para que a qualidade da areia possa ser avaliada e divulgada para a população, como é feito com a água.
É um aspecto muito importante. Pois muitos vão à praia e ficam só na areia, pensando que estão seguros. Mas o risco de pegar uma doença na areia também existe diz a pesquisadora Adriana Sotero Martins, da Fiocruz.
Para criar os tais parâmetros científicos para medição da qualidade da areia, as coletas têm sido feitas em praias da Baía de Guanabara, na Ilha do Governador e em Paquetá, desde o ano passado. E o que não falta nestes locais são agentes patogênicos.
Os pesquisadores identificaram grande presença de coliformes, que podem causar diarréias e gastroenterites. Também foi constatada a presença de fungos, que provocam micoses, sapinhos e candidíase (infecção no órgão sexual feminino). Completando o universo de patologias, há ainda uma grande quantidade de parasitas, que provocam as mais variadas verminoses.
Maus hábitos
Muitos destes problemas são causados por maus hábitos dos frequentadores, que deixam restos de comida na areia. Estes restos atraem pombos que sujam areia. Além disso, existe o hábito de levar cachorros para a praia e com isso mais sujeira diz a pesquisadora.
Para detectar os agentes causadores de doença nas areias, os pesquisadores estão usando metodologias inovadoras. Uma delas usa o método da membrana filtrante : a areia é filtrada sobre uma membrana e os microorganismos crescem sobre ela. Também é feito o crescimento de fungos em uma solução especial laboratório.
Para fazer estudos, os pesquisadores usam até aparelhos de GPS, para marcar exatamente os pontos de coleta. Em cada uma das praias duas na Ilha e duas em Paquetá foram feitas 16 sessões de coleta de um ano para cá. As praias são divididas em diversos quadrantes de 40 metros. Em cada um destes quadrantes foram definidos 10 pontos para recolher amostras de areia.
Usamos o GPS para recolher amostras sempre nos mesmos pontos e assim fazer uma série histórica do material encontrado explica a pesquisadora da Fiocruz
O objetivo deste método é fazer uma análise estatística ao longo do ano para identificar as estações mais propícias para a frequência dos banhistas.
Já descobrimos que nos dias de tempo firme, a areia fica mais limpa, pois o sol esteriliza os agentes patogênicos.
O estudo tem financiamento do CNPQ e o próximo passo é levar a metodologia para fazer análise de praias mais frequentadas na Baía de Guanabara, como Botafogo e Flamengo. A areia das praias oceânicas, como Copacabana e Ipanema, também serão analisadas a partir deste ano.
