Nova droga contra Alzheimer reacende esperanças na comunidade científica
Medicamento inglês retardou significativamente o declínio cognitivo e funcional em um grande estudo de pacientes nos estágios iniciais da doença, um resultado positivo raro em um campo repleto de falhas
Os resultados de um teste importante de um medicamento para Alzheimer divulgados nesta quarta-feira (28) reacenderam esperanças de décadas de que atacar uma proteína específica ajuda a deter a progressão da doença cerebral fatal, dando um grande impulso a estudos semelhantes conduzidos pelos laboratórios Roche e Eli Lilly.
As farmacêuticas inglesas Eisai e Biogen dizem que seu medicamento experimental retardou significativamente o declínio cognitivo e funcional em um grande estudo de pacientes nos estágios iniciais da doença, um resultado positivo raro em um campo repleto de falhas.
A droga, Lecanemab, retardou o progresso da doença degenerativa do cérebro em 27% em comparação com um placebo, oferecendo a promessa de um tratamento eficaz para pacientes desesperados e suas famílias.
O resultados apoiam uma teoria de longa data, mas controversa, de que a remoção de depósitos pegajosos de uma proteína chamada beta-amiloide, no cérebro de pessoas com Alzheimer, pode retardar a progressão da forma mais comum de demência, que afeta cerca de 55 milhões de pessoas em todo o mundo.
Quase todos os medicamentos para Alzheimer, incluindo aqueles direcionados à amiloide, tropeçaram nos testes.
O Dr. Kristian Steen Frederiksen, diretor de uma unidade de testes clínicos da Universidade de Copenhague, disse que os dados mais recentes são evidências sólidas de que a beta-amiloide não é apenas um "observador inocente" no desenvolvimento de medicamentos para demência.
As perspectivas de outros medicamentos antiamilóides de alto perfil atualmente em testes clínicos, incluindo o Gantenerumab, da Roche, e o Donanemab, da Eli Lilly, são maiores com o resultado dos dados da Biogen-Eisai, disseram analistas.
HIPÓTESE AMILOIDE
Alguns pesquisadores, incluindo Frederiksen, estão cautelosamente otimistas sobre o impacto que os dados da Biogen Eisai têm na probabilidade de sucesso dos outros dois medicamentos em desenvolvimento.
Os três medicamentos experimentais diferem em termos de quais tipos de beta-amiloide se ligam, e há diferenças nos desenhos dos ensaios e perfis potencialmente de segurança, disse ele.
"Aprendemos ultimamente a não ter muitas esperanças", disse Tara Spires-Jones, vice-diretora do Centro de Descobertas de Ciências do Cérebro da Universidade de Edimburgo.
Os cientistas também alertam que há muitas alterações cerebrais implicadas na doença de Alzheimer, além da amiloide, e que alguns dos outros alvos explorados são mais propensos a funcionar para pessoas que têm demência.
A doença de Alzheimer é um distúrbio complexo, e apenas visar a amiloide pode não ser suficiente, disse Miia Kivipelto, professora de geriatria clínica do Karolinska Institutet Center for Alzheimer Research.
Uma abordagem de tratamento individualizado, como é o caso do câncer, é provavelmente necessária, disse ela.
A chamada hipótese amilóide foi desafiada por alguns cientistas, particularmente após a controversa aprovação do Aduhelm pela Food and Drug Administration dos EUA em 2021, com base em sua capacidade de remoção de placas, em vez de provar que ajudou a retardar o declínio cognitivo. A decisão veio depois que o próprio painel de especialistas externos da FDA desaconselhou a aprovação.
"Esses (dados mais recentes) certamente deixarão os mais fortes defensores da hipótese amilóide muito felizes e podem atenuar os argumentos dos críticos mais fortes", disse Spires-Jones.
