Puxadinho ambiental
Mario Moscatelli, Jornal do Brasil
RIO - Olhando para a região metropolitana do Rio de Janeiro, por meio do monitoramento aéreo do projeto Olhoverde, constata-se um cenário de degradação generalizada, produto da histórica incapacidade gerencial quase que contínua do poder público associada por décadas de descaso e certeza da impunidade.
Praticamente todos os rios da bacia hidrográfica das baías de Guanabara e Sepetiba foram transformados em imensos valões de fezes, onde milhares de metros cúbicos de esgoto por dia escoam junto com lixo tudo o que se possa imaginar em direção às águas daquelas baías. Situação idêntica se repete no sistema de lagoas da Baixada de Jacarepaguá, área nobilíssima da cidade, onde gigogas além das cianobactérias que podem causar câncer de fígado se multiplicam na pasta de fezes e resíduos na qual se transformaram as águas das cinco lagoas da região.
Sede até 2016 de quatro grandes eventos internacionais, a cidade do Rio de Janeiro vive seu momento decisivo no que diz respeito ao resgate de seu imenso passivo ambiental. Se não for desta vez, esqueçam e acostumem-se a viver no meio do caos ambiental. Para materializarmos esta virada ambiental precisamos claramente apertar as diversas esferas do poder público no sentido de: 1) Determinarmos pragmaticamente, poder público, universidades e sociedade, quais problemas que serão atacados; 2) Quais as obras que serão executadas para resolvermos de fato as causas que degradam o meio ambiente; 3) Sabermos qual o preço das obras e definirmos a fonte dos recursos, quem executa, gerencia e fiscaliza as mesmas; 4) Exigirmos apresentação pública de cronogramas e relatórios periódicos físico-financeiros com data de início e fim das obras. Caso contrário, estaremos vendo a nova versão do puxadinho ambiental , ou seja, obrinhas quebra-galho ou emergenciais sem licitação. Seria a repetição do efeito Pan , no qual até hoje a estação de tratamento do arroio Fundo, a única obra ambiental daquele evento, continua sem ter sido inaugurada. Se não nos mobilizarmos agora, em 2010, perderemos a última oportunidade de pagarmos a promissória ambiental mais do que vencida, condenando a nossa e as futuras gerações a um ambiente permanentemente degradado.
Há de se destacar nesse caldo de omissão e degradação a qualidade e alguns importantes avanços obtidos da atual gestão estadual ligada à questão ambiental. No entanto, a gestão ainda pode melhorar muito em diversos aspectos, e claramente apenas quatro anos não serão suficientes para reverter o caos observado. Por isso mesmo, independentemente de quem venha a ser vitorioso(a) nas próximas três eleições vindouras, a política de meio ambiente do estado do Rio de Janeiro terá obrigatoriamente de ter um rumo fixado. Caso contrário, o que continuará dominando serão os míopes interesses corporativistas e político-partidários do momento, incompatíveis com a lógica do gerenciamento ambiental.
Mario Moscatelli é biólogo e professor de gerenciamento de ecossistemas do Centro Universitário da Cidade.
