Infecção urinária

Por

Fernando Pires Vaz, Jornal do Brasil

RIO - A incorporação da diálise e dos transplantes de rim como métodos terapêuticos não excepcionais, o que ocorreu em quase todo os países adiantados e mesmo em muitas áreas do Brasil a partir da segunda metade do século passado chamou subitamente a atenção do público para aspectos peculiares das doenças renais, e sobretudo para o fato de que elas muitas vezes evoluem silenciosamente.

Por causa disso, as infecções, que são uma das doenças urinárias cujos sintomas chamam logo a atenção, são ocasionalmente supervalorizadas, tanto pelos médicos como pelos pacientes, e às vezes supertratadas, com o uso de antibióticos de última geração, dispendiosos, às vezes com importantes efeitos colaterais e, no caso, mal indicados. E também por causa da existência destes mesmos remédios e da facilidade em adquiri-los, com ou sem prescrição, estas infecções às vezes são tratadas por automedicação, sem avaliação médica correta.

Frente a um exame de urina sugerindo infecção urinária, ou a um paciente com sintomas, é preciso que o médico separe os enfermos em dois grandes grupos: os que correm riscos importantes, sejam de vida ou os de sequelas futuras, e os que não correm, e que também tente localizar quais os pontos do trato urinário que estão afetados.

No que diz respeito aos pacientes, os que correm risco, são por exemplo os que sofrem de condições que comprometem as suas defesas corporais, como por exemplo diabetes, ou usam medicamentos imunodepressores. Já os que têm imunidade normal estão menos sujeitos a complicações graves.

E no que diz respeito a infecção propriamente dita, entre as que estão só na bexiga, denominadas baixas e que são menos perigosas, e as que comprometem os rins e denominadas altas e são sempre mais sérias.

Assim, mulheres pós-menopausa, cuja vagina já não tem os mesmos mecanismos de defesa por causa da baixa hormonal, e que apresentam um exame de urina sugestivo de colonização bacteriana mas que não têm anormalidades do sistema urinário e não têm sintomas ou só se queixam de mau cheiro na urina, não necessitam de tratamento com antibióticos. No máximo, precisam fazer uso de substâncias que acidifiquem a urina e melhorem este odor, além de dificultarem a reprodução das bactérias responsáveis por isto.

Outra situação semelhante são as chamadas cistites , que às vezes surgem nas mulheres jovens após atividade sexual e que são facilmente controladas com prevenção ou tratamentos curtos, e não requerem uso prolongado de remédios.

Por outro lado, se estas mesmas mulheres tiverem alguma obstrução ao fluxo normal da urina, como um cálculo, a situação é outra e exige uma avaliação especializada.

Qualquer infecção urinária acompanhada de febre, em qualquer idade ou sexo, requer pronto tratamento, sempre acompanhado de uma pesquisa das suas possíveis causas.

Já os homens, por causa da anatomia do seu sistema urinário inferior, que os protege mais das bactérias, e da presença da próstata, nunca têm infecção urinária sem importância, e qualquer afecção deste tipo exige pronta consulta com um especialista e avaliação especializada, sendo o tratamento sempre mais complexo e demorado. Isto porque, quando afetados, ou a bactéria é mais virulenta ou a infecção mais séria.

Para terminar, existem algumas situações especiais que devem ser sempre valorizadas, como a infecção durante a gravidez ou em crianças. Em caso de dúvida, não hesite em procurar o médico e expor suas dúvidas. O autotratamento, de modo geral, não é aconselhado, mas sobretudo deve ser evitado em situações que exigem às vezes investigação clínica, como as infecções urinárias, para que o risco real de complicações futuras possa ser avaliado e evitado.

Fernando Pires Vaz é médico.

Conferência realizada no Curso de Capacitação em Urgências e Emergências, parceria da Secretaria de Estado de Saúde e da Defesa Civil com a Academia Nacional de Medicina, sob coordenação de José Galvão-Alves.