Os bons ventos voltaram a soprar

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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Os números da economia brasileira no primeiro trimestre são para animar o mais pessimista dos analistas. Ainda mais se levarmos em conta o dado cultural do Brasil, onde o último ano de um mandato presidencial (se for o segundo, então, mais ainda) costuma ter a marca da paralisia, à espera de que os novos comandantes deem o rumo. O dado mais relevante dentre os divulgados esta semana aponta para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 2% no trimestre, o que equivale a uma taxa anualizada em 8,4%.

Esse dado concreto sinaliza para outros, no campo das teorias, bastante otimistas. Como praticamente todos os números da economia nacional têm sido revisados para cima, e não há qualquer indicador da presença da fatores que provocassem uma desaceleração da economia ao longo de 2010, alguns analistas já fazem projeções de que o crescimento do bolo , ou seja, do PIB em 2010, poderia passar um pouco dos 7%.

Caso se confirme a previsão, seria algo cuja importância pode ser medida pelo fato de que o Brasil não aumenta seu PIB em mais de 7% desde os 7,5% obtidos há 24 anos, em 1986, em plena vigência do Plano Cruzado, quando o congelamento de preços injetou muito dinheiro na economia.

Mesmo outras projeções menos festivas, como a divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontam para um avanço do PIB entre 5,5% e 6,5% no ano, o que significa números compatíveis com o período de pujança que antecedeu a crise econômica global, deflagrada no último trimestre de 2008.

Analistas do Ipea chegam a comparar o ano de 2010 a um 2008 sem os três últimos meses . Sustentam essa projeção e, de resto, as outras mais otimistas o alto consumo das famílias, o aumento do emprego, a tendência de crescimento da renda per capita, além dos indícios de expansão do crédito.

Não há indícios concretos de fatores que pudessem exercer pressão inflacionária, e mesmo a alta deste primeiro trimestre no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2,06% é flagrantemente sazonal por conta de despesas com educação (que não se repetirão no decorrer da temporada) e do aumento dos preços de alguns produtos agrícolas afetados pelas intempéries recentes.

Há, de fato, um fator que deve ser levado em conta, que pode influir para a confirmação de números tão expressivos ao fim do ano: o efeito da corrida às lojas para aproveitar as últimas reduções do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a linha branca e os automóveis. Estudos que levam em conta uma possível desaceleração no consumo, no segundo semestre, ainda assim apontam para um crescimento do PIB nacional na casa dos 5,8%.

Ainda que esta última projeção seja a que vai se concretizar, é importante que o comandante da nação a partir de 2011 siga a cartilha de seus antecessores: que mantenha e amplie as coisas que o governo Lula fez de bom, assim como este manteve e ampliou coisas positivas do governo FHC. O importante, sempre, é crescer, com prosperidade e dignidade. O Brasil não é a China, não é, pois, obrigado, a crescer na mesma intensidade. Se conseguir, ótimo. Se não, basta que valha a sabedoria de nossos avós, os quais repetiam as expressões devagar e sempre e devagar se vai longe .