O inferno da Igreja

Por

Carlos Alberto Rabaça, Jornal do Brasil

RIO - Os escândalos e abusos sexuais de padres pedófilos na Europa, na América e no Brasil atingiram a Igreja Católica, núcleo simbólico contra os desvios patológicos do individualismo contemporâneo para conter a violência e os perigos de autodestruição do homem.

A revelação da mensagem cristã, de responsabilidade daqueles que escolheram o sacerdócio como missão, pode conduzir o homem à salvação e à paz, mas pode também privá-lo daquelas proteções sagradas, criadas para protegê-lo de sua própria violência. O cristianismo é criativamente libertador, mas nessa libertação há ainda lugar para uma criatividade negativa, diabólica e destruidora. Infelizmente o Vaticano, na sucessividade dos recentes escândalos que abalam a todos nós, não organizou estruturas de contenção para o enfrentamento de fatos apocalípticos que atingem indiretamente a figura central da Igreja, o papa. Todo o horizonte ideológico da cultura contemporânea está construído ao redor da centralidade das vítimas, sejam elas vitimadas pelas injustiças sociais, pelas guerras, pelas perseguições políticas, pelos desastres ecológicos, pelas discriminações raciais, religiosas ou de violência sexual. As acusações de pedofilia dentro da Igreja Católica se multiplicaram nos últimos anos, carecendo de uma ação disciplinadora. A tradição judaico-cristã, ao longo dos séculos, sempre colocou vítimas inocentes no centro do horizonte discursivo, daí a importância de se debater o relacionamento entre religião e modernidade, verdade e liberdade, relativismo e fé, numa sociedade em que são representadas novas formas de violência de matriz religiosa. Depois de 20 séculos, é imperativo que a Igreja mude de pele. As fórmulas antigas encolheram e se esclerosaram. Para continuar a viver, ela precisa expurgar o mal e ser proativa no combate a desvios escabrosos.

Um dos temas basilares nesse escândalo diz respeito ao exercício da sexualidade, uma das principais resistências da Cúria Romana. A Igreja subestima a importância da sexualidade e, além disso, não prepara os religiosos psicologicamente para tal renúncia. Correntes de opinião, dentro da Igreja, chegam a afirmar que o celibato contradiz os Evangelhos e é a principal causa dos abusos sexuais. É possível que, na busca das causas de episódios tão desastrosos para a Igreja, ela venha a ser confrontada com um tabu sobre o qual muitos sacerdotes não tenham coragem de falar com outras pessoas. O padre Teilhard de Chardin afirmou, certa vez, que a Igreja é a aproximação mais possível com a Verdade e, para subir mais alto, é preciso ultrapassá-la, crescendo com ela e não abandoná-la para procurar sozinho o próprio caminho. Se existe um Ser que é o centro de convergência de tudo, esse Ser está, de algum modo, comprometido com o sucesso moral da Igreja .

Não se pode ignorar a omissão da Igreja nos abusos contra as crianças e adolescentes. É porém necessário não escandalizar as ações que se fazem necessárias já que as camadas profundas do organismo católico ficariam intoxicadas de certas verdades que lhes fossem brutalmente e maciçamente inoculadas. Entre o terreno do pensamento humano (livre, mas não suficientemente religioso) e o terreno da vida cristã (intensamente religioso, mas nem sempre suficientemente humano), penso que deve haver religiosos leigos, participando um pouco dos dois, de modo a estabelecer e graduar o contato. Identifico na rigidez e isolamento da Igreja institucional certas inadaptações e caducidades, mas também reconheço nela uma canalização de amor sublimada de almas capaz de fazê-la ressurgir gloriosamente do momento tão difícil que atravessa. O verdadeiro cristianismo não se contenta com a confissão da culpa, mas exige uma transformação radical de concepção, de atitude psíquica, de mentalidade, de coração.

A religião pode ser autoritária, tirana, reacionária, provocar medo, injustiça e inibição social. Pode até inspirar e legitimar a imoralidade. Mas pode sobretudo atuar como instrumento de liberação, de fraternidade, de amor ao próximo, de tolerância, de criatividade, de compromisso social. Nesse sentido, estou de acordo com Jürgen Habermas, quando afirma: Penso que não podemos compreender seriamente conceitos como moralidade, honestidade, pessoa e individualidade, liberdade e emancipação... sem assimilar o pensamento histórico-salvífico de origem judaico-cristã .

Carlos Alberto Rabaça é sociólogo e professor.