Iraque: ingerência externa precisa acabar

Por

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - De todas as previsões do governo americano para o Iraque, a médio e longo prazo, a que mais alento dá ao povo local e a todos que querem um futuro melhor para o país é a de que ao fim de 2011 todo o contingente do exército ianque terá voltado para casa. Livre da mão pesada de Saddam Hussein, o país precisa encontrar seu rumo pelas mãos de seus cidadãos. O que pode parecer confuso ou caótico para os ocidentais é a forma iraquiana de fazer política e de se organizar, e só sua população pode construir seu próprio futuro.

A eleição de domingo, que escolheu o primeiro Parlamento a ter um mandato concluído sem a presença americana no país, foi importantíssima para reforçar o conceito de autodeterminação iraquiana. Não faltaram analistas americanos e europeus a qualificar o pleito como pouco representativo , por causa do comparecimento menor da população com relação às eleições de 2005 76% dos eleitores naquele ano, 62% agora. São comentários ingênuos ou preconceituosos. Como pode ser pouco representativo um pleito com mais de 6 mil candidatos para 325 cadeiras num país onde, muito antes de os americanos o invadirem, a compra de votos, a violência das milícias e as fraudes são quase endêmicas?

Com americanos ou sem americanos, o Iraque tem um problema político: a impossibilidade de coexistência pacífica entre grupos religiosos, historicamente rivais, que compõem a população local: xiitas, sunitas e curdos. Qualquer tentativa de acordo invariavelmente termina em bombas explodindo.

Na eleição atual, nenhum dos grupos obteve ampla maioria, o que levará seguramente a muitas (des)articulações e brigas até que se consiga formar um governo isso, somado à corriqueira inércia do Parlamento iraquiano, deve trazer muita encrenca nos próximos meses.

Mas esse é o jeito deles de fazer política. Os Estados Unidos deviam, isto sim, erguer as mãos aos céus pelo fato de ter havido eleições apesar dos toques de recolher da Al Qaeda e das milícias que ameaçavam carnificinas contra quem ousasse demonstrar alguma vocação democrática.

Foi algo em torno de US$ 53 bilhões que os americanos torraram no Iraque. Nunca se jogou no ralo tanto dinheiro numa ação depois do Plano Marshall. Por que jogar pelo ralo ? Porque em sete anos de intervenção ianque, o desemprego ou subemprego atinge 45% da população, e somente 25% das casas têm acesso a energia elétrica. É inegável que o cotidiano do Iraque, apesar dos pesares, é melhor do que era em 2003, quando as tropas ocidentais baixaram com força por lá, mas, dada a incompetência dos comandantes locais ou estrangeiros para tornar melhor a vida do povo, é de espantar que alguém ainda saia de casa para votar.

Ainda há tempo para que uma gestão cercada de expectativas humanistas como a de Barack Obama confirme os anseios gerais e aprenda as lições que os sete anos no Iraque deveriam ter trazido guardadas as devidas proporções, são muito parecidas com as que eles não aprenderam no Vietnã. Que as tropas voltem para a América e desistam de mais uma carnificina, que custará a vida de mais soldados e civis no Afeganistão. Cada país, seja de qual lado do planeta esteja, tem o direito de decidir seu futuro sem ninguém de fora para meter o bedelho.