ESG debate educação de qualidade
Arnaldo Niskier, Jornal do Brasil
RIO - Por mais que se queira ser otimista, no trato da educação brasileira, os fatos depõem contra o atual estágio em que nos encontramos. Há belos discursos, promessas abundantes de um próximo período de vacas gordas , mas no mínimo a situação inspira cuidados, como se o doente ainda não tivesse recebido alta do hospital.
O assunto foi abordado por mim, ao ministrar a aula inaugural dos cursos de 2010 da Escola Superior de Guerra (ESG). Abordou-se o caso do magistério. É quase uma tragédia anunciada. Dois fatos são logo evidentes: os baixos salários pagos, em todos os níveis, sobretudo os iniciais, e a perda ostensiva de status, se comparada a categoria com o que acontecia há 50 anos, por exemplo. A massa crítica de bons professores, por exemplo, especialmente na rede pública, é mínima, daí não ser surpresa o que foi agora noticiado, como consequência dos exames vestibulares: somente 2% do alunado que concluiu o ensino médio buscaram, como primeira opção, o curso de pedagogia. É preciso algo mais evidente da falta de atração pela carreira?
Podemos alongar a vista para o estado de São Paulo. O seu sistema público tem 210 mil professores e criou a figura do professor temporário , para suprir carências indesculpáveis, hoje da ordem de 80 mil professores. Fez-se um exame de certificação, e a reprovação alcançou a taxa de 40%, ou seja, as crianças paulistas estão sendo preparadas por professores que não sabem o que estão ensinando, numa proporção alarmante. A Assembleia Legislativa autorizou a contratação de 10 mil professores. O que vai acontecer com os outros 70 mil despreparados, na maior unidade econômica do país, só Deus sabe. Uma geração inteira está sendo sacrificada, em termos culturais, com a complacência generalizada das autoridades e da própria sociedade, que não reage a esse absurdo.
Somos francamente favoráveis a soluções definitivas. Estamos cheios de remendos. No Rio, a propósito da realização da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016, criou-se uma curiosa gratificação de 500 reais, em média, para os policiais civis e militares que forem se empenhar nesses importantes eventos. É um diferencial para poucos, gerando ainda maior insatisfação, como se fez quando Darcy Ribeiro conseguiu melhor salário para os professores que fossem trabalhar nos Cieps. O sistema ficou dividido.
A solução deve ser para todos, como fizeram os países que suplantaram dificuldades econômicas evidentes, no século passado, como os tigres asiáticos e as nações escandinavas, para se tornarem potências econômicas de primeira ordem. Em todos eles, a educação passou a ser a grande prioridade e, nela, a remuneração do trabalho dos seus professores e especialistas. Será que é tão difícil compreender esse fato? Foram tomadas soluções estruturantes e não medidas precárias, como seria a criação de uma Bolsa Magistério .
Devemos pensar o futuro com otimismo. A economia brasileira enseja esta confiança, e o respeito internacional granjeado pelo país pode mover os nossos passos em direção ao caminho correto, que passa por uma educação de qualidade.
O que é qualidade na educação? Já vimos a questão dos professores e toda a sua repercussão no processo.
Para a escritora Hannah Arendt, a função da educação é a humanização, mesmo pensamento defendido por educadores brasileiros, com o saudoso dom Lourenço de Almeida Prado. Ele gostava de repetir Kant: O homem só é homem pela educação .
Para que o humanismo prevaleça, é fundamental que os alunos sejam preparados com os recursos da língua portuguesa, da história, da música e das artes. Daí ser fundamental o emprego das avaliações, hoje frequentes, em que se considera o que se passa na escola e também as condições familiares e comunitárias. Elas não podem ser só quantitativas, envolvem o processo global.
Além de presidente do CIEE/Rio, Arnaldo Niskier é doutor em educação e membro efetivo da Academia Brasileira de Letras.
