Recompensa a quem não canta na chuva
Editorial, Jornal do Brasil
RIO - O vídeo, de inspiração poética, editado com a canção tema de Cantando na chuva, tem circulado pela internet e é mais uma daquelas demonstrações de como o carioca é capaz de sorrir, de levar a vida na esportiva, mesmo diante da adversidade. Num Baixo Gávea alagado, garçons com águas nas canelas continuam sua rotina de servir os clientes, que estão sentados sobre as mesas do restaurante. Todos se divertem como protagonistas e espectadores da situação inusitada. A caixa de isopor boia pela rua, levando a bordo o desorientado inseto kafkaniano. Moças ilhadas dentro de um carro sorriem para o homem que carrega outra nos braços em direção ao pedaço de chão mais seco. Até que, de repente, um inesperado surfista aparece remando com sua prancha e chega a mergulhar o rosto na água imunda. A cena é recebida com aplausos entusiasmados. Tudo é festa. Afinal, nem o temporal de cinco horas, que matou seis pessoas e inundou e parou a cidade, pode estragar a animação dos embalos de sábado à noite. É esse o espírito do carioca.
Comentários ao vídeo postados na internet, inevitavelmente, lembraram como tal clima de descontração, em meio à tempestade, só poderia mesmo acontecer no Rio de Janeiro. O episódio deveria ser uma lição de savoir-vivre para a sisuda São Paulo, castigada durante mais de um mês com chuvas pesadas neste verão. Nada de óbvias críticas às autoridades, de reclamações aos órgãos (in)competentes ou lamentações inúteis a São Pedro. Isso é coisa de paulista, que deveria aprender com o bom humor carioca. Fosse feito em São Paulo, o vídeo provavelmente teria pessoas menos sorridentes, um tom de denúncia e o som de um rapper para cantar o sofrimento dos demônios, na garoa.
Mas quem deve aprender com quem? Talvez seja tão difícil para os cariocas assimilarem a organização e a seriedade dos paulistas quanto para os paulistas aprenderem a deixar a vida correr, como está previsto na cartilha do jeito carioca de ser. Características culturais fazem parte da própria formação de comunidades, povos, geração após geração. Ou se as tem, ou não se as tem.
No entanto, o fato é que muito do charme mas também das mazelas do Rio de Janeiro se deve a essa maneira descompromissada dos cariocas. De não levar as coisas muito a sério. De achar que a reivindicação, o protesto quase sempre pode ser feito de uma forma criativa, irreverente, carnavalesca, no máximo com o pesar elegante do simbolismo dos abraços na Lagoa e das cruzes fincadas nas areias de Copacabana. Nem sempre. Certos problemas requerem solução institucional, organização, mobilização, algo que só de imaginar já cansa o menos carioca dos cidadãos do Rio. Numa cidade em que compromisso, pontualidade e previsibilidade são considerados qualidades entediantes, e articular a ação entre amigos já virou folclore no clássico Vamos combinar um chope , a ideia de organizar uma ação coletiva mais ampla, institucionalizada, chega a ser uma quimera.
O habitus carioca tem um impacto direto na capacidade de mobilização política do Rio. Por vezes, cidades, estados e regiões com população muito menor, porém, organizados, são mais bem sucedidas em suas demandas. Para não falar de São Paulo, que deu luz aos dois partidos que há 16 anos mandam no país. É uma recompensa para aqueles que não cantam na chuva.
