Terrorismo: o difícil caminho para a trégua
Editorial, Jornal do Brasil
RIO - A frustrada tentativa de atentado a um avião que se aproximava dos Estados Unidos por um desastrado terrorista nigeriano é uma prova incontestável que felizmente não produziu os efeitos trágicos previsíveis de que os terroristas, e especificamente a Al Qaeda, não recuaram na sua guerra contra o invasor americano. Depois de chocar o mundo com a derrubada das Torres Gêmeas, em 2001, esses grupos optaram por um recuo estratégico. Mas, tem-se agora a certeza, estão muito ativos e por muito pouco não atingem os Estados Unidos e de resto todos os povos que defendem a paz no planeta com outro golpe sangrento.
Além da própria possibilidade de mais uma aeronave derrubada, choca a facilidade com que o terrorista trapalhão conseguiu embarcar com explosivos. Depois do 11 de Setembro, viver o papel de passageiro em aviões, especialmente em voos internacionais, tornou-se algo muito incômodo, em maior ou menor escala. As medidas de segurança, infelizmente para quem não é terrorista, são justificáveis. É melhor perder um pouco de tempo no embarque, e se irritar com as revistas minuciosas, do que correr o risco de ter o avião sequestrado ou abatido em pleno voo.
Eis que na semana passada os usuários de aviões viram chocados que com Umar Faruk Abdulmutallab a segurança não foi tão severa assim. É uma sensação de impotência e revolta similar à que sente quem paga os impostos em dia e toma conhecimento da impunidade para sonegadores mais abastados e poderosos. Não resolve o problema, mas ao menos é alentador que o presidente Barack Obama não tenha tentado cobrir o sol com a peneira, admitindo que as medidas de segurança no setor aéreo não estão sendo mais tão eficazes e que isso é inaceitável.
Além de vigiar melhor os aeroportos, o governo Obama tem, desde que assumiu, uma tarefa árdua: mudar radicalmente a política externa desastrosa adotada pelos antecessores republicanos e, com isso, reduzir drasticamente a motivação e a sanha dos grupos radicais islâmicos.
Não é fácil. É quase como escavar um poço sem fundo ou tentar enxugar gelo. Mas na frase anterior há um quase . É nele que a diplomacia americana deve se agarrar. É preciso acreditar que é possível a convivência pacífica definitiva dos Estados Unidos com as nações do Oriente Médio e agir nessa direção. E, tarefa mais hercúlea ainda, promover a tolerância entre esses povos e seus irmãos de Israel.
A postura do atual governo americano, contudo, dá indícios de ir em outra direção. Quando se anuncia que o Pentágono vai torrar mais US$ 70 milhões em menos de dois anos para treinar o Exército do Iêmen o novo foco terrorista, segundo o Ocidente , e nem um centavo para a construção de escolas ou criação de políticas agrícolas para reduzir a fome naquela região, não se vislumbra um caminho para a paz.
Ninguém propõe que, como sugere Jesus Cristo, ofereça a outra face após uma bofetada. Mas tampouco é possível responder a essa agressão com paus e pedras. O caminho é, além de tomar conta da própria casa, mostrar ao agressor disposição para sentar, conversar e aparar arestas. Leve o tempo que levar, demande o que demandar, custe o que custar.
