O debate sobre a Venezuela é míope

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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - A discussão no Congresso em torno da aprovação, ou não, do ingresso da Venezuela no conjunto de países que formam o Mercosul tinha um viés deslocado. A pretensão do Estado governado por Hugo Chávez de pertencer ao bloco é antiga, mas sempre foi travada por divergências de ordem dogmática, como se um atestado de bons antecedentes fosse algo com validade para esse tipo de fórum. A oposição parlamentar pretendia fazer uma alteração no texto da proposta de forma a assegurar o acesso venezuelano a um compromisso explícito com os princípios democráticos. Apesar da intenção positiva, a medida escondia certa prepotência, sem falar num desconhecimento das condições internacionais. Felizmente não passou.

O Mercosul sempre foi um bloco heterogêneo, com interesses amarrados muito mais pelos dois principais integrantes, Brasil e Argentina. É o movimento de timão dessas duas economias que faz guinar de rumo as outras, em função do volume das exportações e do peso político das decisões que envolvem tais negociações. Não à toa, Uruguai, Paraguai e Bolívia não raro reclamam de condições desfavoráveis na balança, já que especialmente o Brasil tem um peso muito maior na proporção e na qualificação daquilo que entra no escambo. Nossos produtos em geral têm maior valor agregado. A entrada da Venezuela nesse clube não muda muito o figurino, embora para o mercado nacional seja uma oportunidade de exportação de bens de consumo importante, um mercado que, nas cidades venezuelanas, sobrevive quase sem indústria nacional. Com preços competitivos, o Brasil tem chances de abrir uma estratégica via comercial.

É verdade que o presidente Hugo Chávez já andou falando mal do Mercosul. Prega abertamente a criação de um bloco paralelo mais orientado para os seus interesses a Alternativa Bolivariana para as Américas. No fundo, mais uma tentativa de abrir caminho do que propriamente um recurso com algum sentido de viabilidade. O bloqueio pretendido pela oposição no Congresso sofria de certa miopia política ao enxergar no discurso de Chávez o interesse a longo prazo da própria nação venezuelana. Mesmo que consiga manter-se a ele e a seu modelo por muito tempo no poder, o presidente não é eterno, enquanto acordos como esse podem durar séculos. A visão de longo prazo é uma ferramenta importante em diplomacia, mas aqui parece um tanto deslocada.

Também soava estranha a pretensão de barrar o país se tomarmos como espelho a relação entre Caracas e Washington. Chávez sempre trata os EUA como uma ameaça uma estratégia eficaz de mobilização interna, haja vista o modelo que vigora até hoje em Cuba mesmo que os americanos reiteradamente tenham dado mostras de que não perderiam tempo, dinheiro e vidas em uma aventura militar num continente pacífico, com consequências imprevisíveis. Ainda assim, no plano comercial, o que existe na via de mão dupla entre América e Venezuela é uma troca intensa. Vai petróleo em quantidades estratosféricas algo em torno de 12% do consumo e voltam produtos industrializados. A balança até pode estar mais magra do lado da importação no momento, mas é assim. Se os EUA toleram as diatribes de Chávez e negociam com ele, soaria ilógico que o Brasil deixasse escapar a oportunidade em nome de uma exigência que, no caminho inverso, também seria considerada uma intromissão nos nossos assuntos internos.