Do poder imperial à hegemonia consentida

Por

José Carlos de Assis, Jornal do Brasil

RIO - No livro que escreveu com os economistas Carlos Medeiros e Franklin Serrano, O mito do colapso do poder americano, o notável cientista político José Luís Fiori faz uma contabilidade assustadora da força militar dos Estados Unidos, com a sugestão implícita de que, se existe, é para ser usada na conservação e ampliação de seu império .

O que não está bem contabilizado são os arsenais, sobretudo atômicos, dos outros: Rússia, China, França, Inglaterra; numa segunda linha, Israel, Índia e Paquistão; numa terceira, os pretendentes Coreia do Norte e Irã. Nem se contam as armas de destruição em massa não nucleares. Todas são muito inferiores, em quantidade, às norte-americanas, mas são igualmente capazes de desencadear uma catástrofe universal. A peculiaridade desses arsenais, portanto, é que não podem ser usados. Foram construídos como forças de dissuasão, isto é, foram construídos para evitar a guerra, não para ganhá-la. Isso constitui uma nítida barreira à expansão do império americano, pelo menos da forma como os impérios se expandiam no passado, isto é, pela aplicação de força militar ilimitada - inclusive contra o Japão.

Sustentei, num livro escrito em 2000, A quarta via, que o impasse nuclear levava necessariamente à cooperação entre os países nuclearizados. Os Estados Unidos estão dando apoio efetivo, técnico e financeiro, no monitoramento dos arsenais atômicos russos. É um meio de reduzirem o risco de que armamento nuclear ou os artefatos para construí-lo caiam em mãos de terroristas. É também a forma de evitarem a proliferação em detrimento da segurança individual dos países, inclusive dos próprios Estados Unidos, e com risco da civilização inteira.

Estamos assistindo a esse esforço de cooperação no Conselho de Segurança da ONU, envolvendo todas as potências nucleares de primeira linha aquelas entre as quais simplesmente não pode haver guerra, pois seria o fim da civilização. E a atitude do governo Obama em desistir das bases de radares e mísseis na Polônia e República Tcheca, logo respondido pela desistência russa de erguer uma base de mísseis como contrapartida, indica que o processo de cooperação está em marcha, para além da retórica. Neste caso, pelo menos, o bom senso já venceu o ceticismo.

O contexto propositivo no qual Obama situa a questão nuclear constitui o ponto de partida mais adequado para uma ação política justa: quem tem poder nuclear militar deve reduzi-lo e eliminá-lo; quem não tem deve desistir de tê-lo; e todos devem ter direito ao uso pacífico da energia nuclear. Como primeiro passo, ele convocou a Rússia para um entendimento sobre a redução dos arsenais. É um primeiro passo, mas tudo começa com um primeiro passo. E o fato é que, pela primeira vez depois de Hiroshima, temos alguma perspectiva, mesmo que longínqua, de um mundo sem armas nucleares.

O problema do Irã tem que ser visto como caso à parte. O Irã não é um país qualquer. É um país muçulmano que está em guerra virtual com Israel, ela também uma potência nuclear. Se o Irã coloca abertamente como objetivo destruir o Estado de Israel, e, tendo em vista o caráter fundamentalista do seu Estado, não será uma situação tranquila para o Oriente Médio e para o mundo que ele disponha de armas nucleares. O esforço de Obama e das demais potências em convencer o Irã a desistir de um eventual programa atômico militar é mais do que justificado.

Também neste caso, porém, é a raiz do problema que deve ser atacada: o despotismo israelense contra os palestinos. Mais uma vez, a iniciativa de Obama está no rumo correto, quando pressiona os israelenses para a solução de dois povos, dois Estados, e se opõe a novos assentamentos judeus na Palestina. Não consigo ver em nada disso o movimento de uma potência imperial impondo sua vontade ao resto do mundo a ferro e fogo. Vejo o movimento do país mais poderoso da terra na tentativa de exercer uma hegemonia benigna, no sentido grego: liderança consentida.

Num mundo nuclearizado, o princípio de Clausewitz, segundo o qual a guerra é a continuação da política por outros meios, tornou-se obsoleto. Arsenais atômicos nivelam as potências de primeira linha em termos dissuasórios, e congelam suas áreas de influência. Além disso, não é só na área militar que os Estados Unidos não têm mais como exercer uma hegemonia imperial. Como mostrei em A crise da globalização, isso é também impossível na economia, nas questões ambientais e no desenvolvimento científico. Em síntese, estamos entrando, efetivamente, na Idade da Cooperação!

* J. Carlos de Assis é economista e professor, autor de "A Crise da Globalização".