Um clima brabo...
Alfredo Sirkis, Jornal do Brasil
RIO - O papel do Brasil é crucial na COP-15, a Conferência de Copenhague, em dezembro, que, até o momento, dá margem a pouco otimismo. Cada relatório científico sobre o aquecimento do planeta é mais preocupante que o anterior.
As emissões globais aumentaram de 36 para 44 gigatoneladas (Gt), entre 1994 a 2005, e continuam crescendo a uma taxa de 1,5% por ano. Em 2010, devem atingir cerca de 50 Gt. Sistematicamente, confirmam-se os piores cenários constantes no quarto relatório do IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change), de 2007, que não previu a velocidade do degelo do Ártico e oeste da Antártida, o derretimento, bem mais rápido do que o previsto, das geleiras do Himalaia, Tibet e Andes. Preocupam seriamente emissões de metano oriundas de certos ecossistemas já atingindos pelo aumento de temperatura. O metano é um gás 21 vezes mais potente do ponto de vista do aquecimento global que o CO2 e os cientistas temem que a liberação de seus depósitos naturais no Ártico, nos fundos dos oceanos e em alguns outros biomas, possa ter um impacto exponencial num círculo vicioso, comprometendo esforços de redução de emissões penosamente implementados.
A elevação do nível do mar poderá afetar instalações portuárias bem como a população que vive na zona litorânea. Muitas cidades brasileiras sofrerão com os impactos de eventos climáticos extremos. São Paulo recentemente enfrentou chuvas muito intensas, fora de época, que provocaram a paralisação da cidade. Santa Catarina teve tornados até poucos anos inéditos no Atlântico Sul. Há sérios riscos de desertificação do semiárido nordestino com novos fluxos migratórios, descontrolados, para periferias urbanas socialmente conturbadas. O aquecimento global ameaça a própria Floresta Amazônica, que poderá virar uma savana, bem como a agricultura. Inclusive o agronegócio que contribuiu para desmatá-la. Segundo o IPCC, para que tenhamos alguma chance de a temperatura média da Terra não ultrapassar 2 graus centígrados, a concentração de gases de efeito estufa (GEE) não deve superar 450 partículas por milhão ppm. Para termos a certeza de que ficará abaixo dos 2 graus, essa concentração não poderia passar de 385 ppm. Em 2009, já ultrapassamos esta concentração! Ainda segundo o IPCC, para que a concentração se limite a 450 ppm as emissões totais de GEE durante este século (2001-2100) devem permanecer abaixo de uma emissão média de 18 Gt por ano. Já estamos em mais de 40 Gt...
Apesar disso ainda existe uma janela de oportunidade, de uns dez a 20 anos, para tentar conter o aquecimento do planeta em 2 graus centígrados. Acima desse limite os efeitos serão catastróficos para nossa geração e de nossos filhos e netos. Essa oportunidade depende de se conseguir uma estabilização das emissões globais até 2020 e de uma redução dramática das mesmas, em 80%, até 2050, tomando como base as emissões de 1990. O Brasil joga um papel fundamental nesta discussão, sendo hoje reconhecido como quarto país emissor de gases efeito estufa (GEE) do planeta, devido, principalmente, ao desmatamento da Amazônia, do cerrado e da queima de canaviais. Somos responsávéis por, aproximadamente, 5% das emissões globais. A China e os EUA, por 20% cada. O Brasil tem relativamente menos dificuldade em conter suas emissões, reduzindo drasticamente o desmatamento, do que se tivesse que mudar toda uma matriz energética dependente do carvão. No entanto, a tendência do nosso país vem sendo ampliar a participação de térmicas a carvão sujando nossa matriz energética tradicionalmente hidroelétrica. No próximo inventário brasileiro de GEE, o peso das emissões não florestais vai aumentar de forma preocupante.
A posição diplomática do Brasil é de grande influência. Temos a oportunidade de assumir a liderança do processo e influenciar tanto países desenvolvidos quanto emergentes. Para tanto, o Brasil precisa ter uma proposta audaciosa e assumir compromissos claros em relação a suas próprias emissões com metas de redução mensuráveis, reportáveis e verificáveis, em todos os setores, equivalentes a, pelo menos, metade das assumidas, na COP-15, por Europa, EUA e Japão. O Brasil deveria em alto e bom som, defender dois princípios: 1) Todos somos responsáveis. Todos os países inclusive os grandes emergentes, China, Índia e Brasil devem estabelecer metas claras, obrigatórias e internacionalmente verificáveis, de redução de GEEs. Até agora a China e a Índia se recusam a isso aceitando apenas expandir menos suas emissões; 2) Poluidores históricos, pagadores: os países industrializados (Europa, Japão, EUA) devem comprometer-se a aportar recursos e tecnologia para uma nova economia mundial de baixo carbono na proporção de sua responsabilidade histórica pelos GEEs já acumulados na atmosfera, ou seja: 70%. O Banco Mundial estima em US$ 470 bilhões, anuais, esses custos de reconversão global. Por esse critério caber-lhes-ia aportar U$ 330 bilhões anuais. Até agora os EUA acenaram com US$ 10 bilhões anuais apenas. Estamos tremendamente longe do mínimo necessário! A COP-15 caminha em direção a um regateio sem sentido de urgência, do gênero rodada comercial da OMC. O governo brasileiro parece confuso e dividido com sinalizações contraditórias e omissões, inclusive do próprio presidente Lula. Só a mobilização da opinião pública global e da brasileira pode trazer a esperança de alguma mudança nesse problema tão crucial para o futuro de toda humanidade.
* Alfredo Sirkis é vereador (PV-RJ).
