Uma tragédia anunciada

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Ana Paula Miranda, Jornal do Brasil

RIO - Em julho de 2009 o JB noticiou que a polícia já havia previsto o aumento de roubos no Rio quando foram anunciadas as metas para este ano. Ao que se pode acompanhar pelo noticiário recente e conforme os dados divulgados pelo ISP a previsão está sendo cumprida. A capital concentrou metade de todos os crimes registrados no Estado no 2º trimestre de 2009. Como todos sabem que os registros representam apenas uma parte do que acontece, pode-se concluir que a situação se agravou muito.

É comum se falar que há uma onda de violência , o que poderia levar a pensar que uma hora a maré vai mudar naturalmente. Acontece que os efeitos da criminalidade violenta não desaparecem tão facilmente, nem variam como as marés.

Outro discurso comum é que os casos que ocorrem na cidade são fatos isolados, o que também não está correto. O pedaço de concreto jogado sobre um carro na Linha Amarela está diretamente relacionado com o roubo seguido de morte em Ipanema. Isso porque a maior parte dos crimes ocorre nas zonas Norte (46,3%) e Oeste (29,3%), com reflexo direto na Zona Sul (12,2%) e no Centro (12%), sem esquecer as outras regiões do Estado.

A violência não está pulverizada, mas organizada sob um padrão caracterizado por altos custos de logística (fornecimento de drogas e armas, autoproteção, perdas provocadas pelas apreensões, propinas), fazendo com que a atividade do narcotráfico seja menos rentável do que aparenta. Outra característica importante do tráfico no Rio é a sua capacidade de se reorganizar localmente. Nesse sentido, as estratégias policiais de repressão numa área sempre terão como consequência a reorganização das redes em outras regiões, visando assegurar a sua clientela. Como a violência é utilizada para garantir as transações, sempre que as redes são atingidas há um acirramento das disputas por recursos. Assim, tráfico e roubos estão diretamente relacionados.

É esse processo que permite explicar porque a Zona Sul, área sabidamente com mais recursos policiais, tem sofrido com o crescimento constante dos crimes, muito embora as zonas Norte e Oeste ainda sejam as mais prejudicadas. No balanço do 1º semestre de 2009 em comparação com 2008, observa-se que os homicídios dobraram em apenas um ano, passando de 17 pessoas assassinadas, para 34 vítimas. O aumento também foi significativo nos casos de tentativa de homicídio, que cresceram 70,2%. É claro que o número de mortes é relativamente pequeno se comparado com a cidade (1.170 assassinatos em seis meses), mas o problema é que a Zona Sul não costumava ter um número alto de mortes e apresentava uma tendência de queda desde 2006.

Além disso, os roubos que apavoram a população têm registrado um crescimento progressivo e constante, sem apresentar nenhum resultado objetivo (redução do crime) ou subjetivo (redução da insegurança da população) em face da maior presença da polícia na área.

Não acredito na hipótese de represália de traficantes à criação das UPPs, porque o crescimento da criminalidade na cidade é anterior a isso. O que há é uma relação perversa entre repressão ao tráfico e uma estratégia equivocada de policiamento da cidade, que não muda por causa do bico.

Trata-se, portanto, de uma questão política, ou melhor, da ausência de uma estratégia integrada de policiamento. O problema é que isso não se resolverá enquanto se mantiver uma postura hipócrita com relação à escala, os bicos e o salário dos policiais. Se o crescimento dos roubos já era esperado, o que será feito para mudar essa tragédia anunciada?

Nenhuma política de segurança trará resultados com dois pesos e duas medidas. Afinal, do ponto de vista do cidadão, o medo de ser assaltado é igual na Zona Sul ou Norte, embora o risco ainda seja maior na Zona Norte.

* Ana Paula Miranda é antropóloga, professora do Departamento de Antropologia e pesquisadora do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas, da Universidade Federal Fluminense.