Fórmula 1: o descrédito está à vista no retrovisor

Por

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - A armação arquitetada por Flavio Briatore e Pat Symonds, a cúpula da escuderia Renault, e executada pelo brasileiro Nelsinho Piquet em 2008 jogar o carro contra o muro para forçar a entrada do safety car, beneficiando o companheiro de time, Fernando Alonso joga a Fórmula 1 num enlameado de descrédito perigosíssimo para o futuro da categoria. Para limpá-la, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) precisa ser firme, não demonstrar a menor falta de pulso e afastar do esporte os aventureiros que pensam não em vencer, mas em se dar bem. Esse descrédito está no vácuo da F-1, já é visto claramente pelo retrovisor.

O escândalo, talvez o mais grave da história por envolver uma manobra desonesta dentro da pista, tem dois personagens principais, Briatore e Nelsinho, que apesar de terem ambos culpa no cartório ou no paddock - estão em situações distintas. O primeiro precisa de punição prática, o segundo já está punido moralmente até quando decidir encerrar a carreira.

Vejamos o primeiro caso. Os métodos questionáveis de Flavio Briatore começaram a se tornar públicos em sua segunda temporada à frente da Benetton, em 91. Três anos depois, a situação ficou mais explícita com uma série de denúncias contra a escuderia, que manchou o primeiro título mundial de Michael Schumacher numa temporada já marcada pela tragédia da morte de Ayrton Senna. A categoria reintroduzia o reabastecimento, que viria a ser decisivo na estratégia das equipes. Briatore mandou tirar o filtro das máquinas de sua equipe, o que acelerava o processo, mas tornava-o perigoso. A tramoia foi descoberta após o incêndio no carro de Jos Verstappen no GP da Alemanha. Por sorte, o acidente teve pequenas proporções e ninguém saiu ferido com gravidade.

No mesmo ano, a Benetton foi acusada de usar dispositivos eletrônicos proibidos camuflados em seu carro controles de tração e de largada. Schumacher ainda fez o serviço de vencer o campeonato jogando o carro sobre Damon Hill, no GP da Austrália. No fim de 94, Briatore comprou a francesa Ligier para ter o direito de uso dos motores Renault, os melhores da época. O regulamento da FIA não permitia que ele fosse o dono da equipe e ele a repassou a Tom Walkinshaw, dono da TWR, também conhecido por manobras, digamos, pouco comuns em outras categorias. O que mais falta para que a FIA elimine em definitivo o palhaço do circo da F-1?

Já o caso de Nelsinho representa outro nível de gravidade. Ele foi 'apenas' um instrumento, e trocou a confissão por uma 'absolvição'. Só que a imagem de um piloto é muito forte, é ele que faz as pessoas ligarem a TV aos domingo para ver as provas, e ele a quem as crianças querem imitar e a quem idolatram.

Nelsinho pode não ser punido pelos tribunais, pode encontrar alguém que se disponha a acolhe-lo numa equipe, pode ter a ajuda do dinheiro do paizão e até comprar uma equipe. Mas não poderá se livrar da sombra do ato desonesto que cometeu e cometeu porque quis, conscientemente. Não terá mais sequer o direito de dar uma derrapada, sem que não seja necessária uma investigação sobre o que provocou tal incidente ou, mesmo sem investigação, sem que alguém fique com a pulga atrás da orelha. É um peso grande demais para qualquer carro de F-1 suportar.