Pressão deu resultado

Por

Mário Moscatelli, Jornal do Brasil

RIO - Minha primeira aproximação com a Lagoa Rodrigo de Freitas foi através dos projetos dos manguezais e não tenho dúvida de que, durante 20 anos, vi altos e baixos em sua preservação.

A Lagoa já teve uma melhora ambiental, no início dos anos 90, devido a obras no final da década anterior. Acontece que político adora inaugurar, fazer manutenção é mais difícil de dar voto. Denunciei que as galerias de águas pluviais eram utilizadas como esgoto até 2001, mas foi após o recolhimento de 400 toneladas de peixes que a pressão de diversas associações de moradores, de ONGs ambientais e de outros obrigou a Cedae a refazer seu diagnóstico, reconhecendo dois pontos cruciais.

O primeiro era que, de 1985 a 2000, a empresa havia investido menos de 1% do arrecadado nos bairros em torno da Lagoa. O segundo, que 51% da tubulação da Lagoa toda de ferro tinha mais de 60 anos. A corrosão era certa.

Resumindo, a Ceade precisou admitir que era o esgoto que matava os peixes da Lagoa e fazer um termo de ajuste de conduta com o Ministério Público infelizmente, por diversas vezes desrespeitado.

A gestão atual, por enquanto, vem cumprindo o termo e houve uma aceleração na troca das elevatórias e dos troncos coletores, que, de ferro, passaram a ser de polietileno, imune à ferrugem.

A partir do momento em que as obras começam, os peixes param de morrer. Foi efeito colateral do atentado de 11 de setembro? Do El Niño ou do La Niña? Do aquecimento global? Não, foi a execução, finalmente, do que vínhamos exigindo havia tempo.

Os índices de balneabilidade, principalmente do meio da Lagoa, são resultados do equilíbrio ambiental, do fim das mortandades de peixes e do incremento da biodiversidade. São batalhas de 10, 15 anos atrás e, hoje, ambientalistas, moradores do seu entorno e cariocas em geral, estão colhendo os frutos das brigas com a Cedae. Isso não caiu do céu, nem foi obra de algum benemérito.

Quando a sociedade pressiona o governo, áreas degradadas podem ser recuperadas e o complexo lagunar da Bacia de Jacarepaguá deve ser o próximo objetivo.

A melhoria na Lagoa Rodrigo de Freitas pode se perder, porém, se não houver manutenção e se a Fundação Rio Águas não fechar conexões de galerias pluviais de prédios que ainda jogam esgoto na água, inclusive identificando os porcalhões que teimam nisso.

*Biólogo