O policial tem que voltar a ter rosto

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Marcos Luiz Bretas, Jornal do Brasil

RIO - Já faz muito tempo que a polícia carioca decidiu trocar o patrulhamento a pé pelos policiais motorizados. Desapareceram as famosas duplas de Cosme e Damião, que reconfortavam os moradores da cidade nos anos dourados. De dentro de suas viaturas, alegavam defensores da profissionalização e do progresso policial, os homens teriam maior eficiência, sendo capazes de chegar em ocorrências mais distantes em menor tempo. O princípio era a mobilidade. O que não se percebeu naqueles tempos longínquos foi que, ao se tornar veloz, o policial perdeu sua face, a presença que tranquilizava ao menos os grupos médios da sociedade, que caminhavam sob o olhar do guarda da esquina. O ganho em eficiência não aconteceu.

Acompanhando uma tendência moderna de afirmar que o primado da técnica permite produzir ferramentas tecnológicas capazes de resolver qualquer problema, bastando haver investimento, rios de dinheiro passaram a ser gastos em novas tecnologias ainda são deixando de lado o aspecto pessoal do fazer polícia. E a população foi ficando com mais e mais medo. Quem tinha recursos e capacidade de pressão política foi em busca de ter o seu guarda. Para ele construía uma cabine e podia ter a paz de saber que, de novo, havia um homem na esquina, zelando pela sua segurança. Agora, ao invés de circular, ele estava fixo, pertencia a alguns privilegiados. Quando ficou evidente que não estava dando certo, trocou-se o policial público pela segurança privada e por mais tecnologia, porteiros eletrônicos, alarmes e câmeras de vídeo.

Todo o sistema de policiamento entrou em colapso. Os investimentos iam na direção errada, a população, e mesmo os policiais, cada vez mais reféns do medo, enquanto líderes políticos discursavam sobre aumentar o número de armas e de carros, comprar blindados, helicópteros, rastreadores por satélite e uma infinidade assustadora de geringonças. Comprava-se, mas não se mantinha apropriadamente, e chegou-se ao ponto absurdo de carros transformados em cabines, incapazes de mover-se por falta de peças. A tecnologia virou teatro. O número de policiais foi se reduzindo, sua preparação não acompanhava as necessidades e seu salário... não era prioridade.

É possível mudar? É preciso mudar. Falar em colocar mais policiais nas ruas não é novidade. Basear políticas públicas nessa presença é. Será preciso resistir à tentação de gastar em brinquedinhos. Investir em capacitação e recuperação salarial. Saber resistir a pressões para colocar novos policiais na rua muito depressa, sem a preparação adequada, ou de contratar gente sem perfil para a função, só porque está disposta a aceitar os baixos salários. A sociedade brasileira e a imprensa têm sido críticas ferozes do aumento dos gastos do estado com pessoal. Talvez a polícia seja um dos poucos espaços públicos onde esse tipo de crítica não apareça. O foco na valorização do policial e na sua presença de forma diferenciada no espaço público, devolvendo a ele o rosto que perdeu, pode ser um bom caminho para a recuperação.

*Professor da UFRJ e pesquisador do Núcleo de Estudos da Cidadania e da Violência Urbana.