Alegria relativa nos Estados Unidos

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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Menor do que se esperava, a queda de 1% do Produto Interno Bruto dos EUA, anunciada na sexta-feira, transformou-se numa bela notícia para os americanos e para um mundo aflito com os rumos tomados pela mais poderosa economia do planeta. Trata-se de uma típica alegria relativa: comemora-se pelo fato de que se aguardava um resultado negativo ainda maior, da ordem de 1,5%, mas não é demais lembrar que foi a quarta retração consecutiva da economia americana, a primeira vez que isso acontece desde o início dos registros do governo, em 1947. Entre euforia e desalento, no entanto, o balanço é positivo. Acima de tudo, fortalece a percepção de que o pior da crise já passou.

Compreensivelmente o presidente Barack Obama disse estar cautelosamente otimista em relação aos rumos da economia de seu país. O PIB de hoje é um sinal importante de que a economia caminha na direção certa e que o investimento empresarial, que despencou nos últimos meses, está mostrando sinais de estabilização , disse ao comentar a divulgação do resultado. Garantiu, porém, que não ficará satisfeito até que o mercado de trabalho comece a mostrar melhoras. Uma prudência diante dos péssimos números do emprego nos EUA e dos modestos índices de recuperação do consumo das famílias americanas, que respondem por mais de dois terços da atividade econômica do país. Segundo os números divulgados na sexta, o gasto dos consumidores recuou 1,2% de abril a junho, depois de subir 0,6% no trimestre anterior. Para especialistas, é um sinal de que a recuperação econômica, já em curso, possa ser ainda mais lenta do que a imaginada.

Há, contudo, um dado ainda mais inquietante para os EUA: o crescimento exponencial dos rombos fiscais decorrentes da crise. Tem sido uma tendência comum a todos os países ricos estando o Brasil em situação relativamente confortável neste quesito, conforme analisado ontem neste espaço mas no caso americano o déficit fiscal ultrapassa a marca de US$ 1 trilhão. Nesta semana, o Fundo Monetário Internacional anunciou que a crise já custou aos governos mais de US$ 10 trilhões, dos quais US$ 9,2 trilhões nas mãos das nações mais ricas. Segundo a instituição, os países mais ricos do G-20 vão sofrer um déficit orçamentário de 10,2% do PIB este ano.

O trabalho do FMI mostra também que, nos países ricos, onde a crise é maior, o endividamento público está explodindo. Antes da crise, o endividamento público americano equivalia a 63% do PIB. Hoje, é de 89%. Para 2014, é projetado em 112% do PIB. Quase US$ 16 trilhões. O FMI prevê que os EUA terão de fazer uma economia anual equivalente a 4,3% de seu PIB para trazer o endividamento para a casa dos 60% nível considerado sustentável. O quadro é assustador. Escancara as portas da conta da saída da atual crise global e mostra que ela vai assumindo proporções gigantescas. Há dois riscos aí. O primeiro é que os trilhões despejados sejam insuficientes para devolver ao mundo um horizonte mais animador no curto e médio prazos. O segundo é a possibilidade de eles se tornarem parte de um problema ainda maior.

Por ora, no entanto, riscos são apenas riscos. Para os EUA, como para o Brasil, vale a convicção de que déficits fiscais são relevantes se uma grande parcela se der na forma de investimentos públicos em infraestrutura, desenvolvimento de novas tecnologias e outras formas capazes de fortalecer uma nação e prepará-la para um crescimento de longo prazo.