Uma nova guerra
Joanisval Brito Gonçalves *, Jornal do Brasil
RIO - Pouca gente deu atenção ao fato, mas há alguns dias os Estados Unidos da América foram atacados. Durante horas, a nação mais poderosa do mundo viu dezenas de seus sites governamentais e empresas privadas serem invadidos por hackers: alguns pararam de funcionar, outros continuaram operando sob controle dos invasores. Da Casa Branca ao Pentágono, passando pelo Departamento do Tesouro e pela Bolsa de Nova York, o que se viu foi o caos no ciberespaço. Apesar da reação das autoridades e da retomada do controle algum tempo depois, foi impossível esconder a vulnerabilidade.
Simultaneamente ao ataque aos EUA, a Coreia do Sul também teve seu espaço cibernético invadido, com danos ao governo e a empresas sul-coreanas. O bombardeio online deixou serviços essenciais inoperantes, causou graves prejuízos financeiros. E logo a agência de inteligência sul-coreana identificou como principal suspeito o regime da Coreia do Norte. Tambores de guerra com tecnologia digital!
Esses acontecimentos, no país mais poderoso do mundo e em um aliado seu, chamam atenção para o novo cenário onde guerras serão travadas no século 21: o mundo virtual. Nunca pessoas, empresas e nações estiveram tão dependentes dessa realidade cibernética. Hoje, informações essenciais estão no ciberespaço, a distância entre dois pontos é uma tecla, e isso tem vantagens e desvantagens.
As vantagens do mundo virtual são incontáveis. Quanto mais desenvolvida uma sociedade, mais sustentada ela está pela internet. Uma compra de supermercado, um telefonema interurbano, o controle do sistema de abastecimento, o gerenciamento do tráfego aéreo, o fechamento de negócios na bolsa de valores, a transmissão de notícias em tempo real: tudo isso depende de computadores e da internet.
Se as vantagens são inúmeras, a nova realidade nos leva a uma constatação aterradora: estamos completamente dependentes dessas máquinas maravilhosas e de tecnologia que desconhecemos. Experimente imaginar como seria sua vida sem os computadores. Provavelmente você nem estaria lendo este jornal.
Se para as pessoas individualmente uma pane no sistema de transmissão de dados seria tremendamente danosa, imagine o que poderia acontecer com empresas e governos. Pense em hackers entrando nos sistemas do governo, acessando seus arquivos, apagando alguns e gerando o caos não só nas páginas da internet mas rede interna. O Estado desmorona. Parece ficção, mas há relatos de que foi o que aconteceu na Geórgia, cerca de um ano atrás, no início da guerra com a Rússia: o sistema de defesa daquele país teria sido completamente neutralizado através do ciberespaço, antes que o primeiro soldado russo pisasse em solo georgiano.
Diante dessa realidade, as nações mais poderosas têm-se preparado para o pior, com planos de contingência, desenvolvimento de sistemas alternativos e com a criação de órgãos de Estado voltados tão somente a uma pronta-resposta a essas ameaças. A guerra cibernética e o ciberterrorismo, definitivamente, estão entre as grandes preocupações dos principais governos do mundo.
* Advogado especialista em inteligência
