A literatura não pode ser um clubinho
Felipe Pena *, Jornal do Brasil
RIO - Tão difícil quanto pronunciar paralelepípedo é encontrar um autor brasileiro de ficção na lista dos dez mais vendidos. Se você não é mago, pesa menos de 130 kg e está longe de compor a trilha sonora de sua geração, esqueça: seu destino é perpetuar o ciclo de minúsculas tiragens do romance nacional. No máximo, 3.000 exemplares e algumas resenhas feitas por amigos que dividem o chope no bar da esquina. E, é claro, as posteriores lamentações por não ser famoso.
São uns ignorantes, você dirá. Incapazes de entender sua proposta temática e penetrar no brilhante jogo de linguagem de sua obra. E jogará os mesmos paralelepípedos que não consegue pronunciar nesses bárbaros incultos, torcendo para que rachem suas cabeças. Quem gosta de plateia é foca amestrada. Você é um intelectual. Tem o reconhecimento da crítica. Você é um sucesso. Até que...
Para seu espanto, o curador da Feira Literária Internacional de Paraty esqueceu de incluí-lo na programação. Não é possível, deve haver algum engano. Vê a lista de convidados na internet. Maria está na mesa de abertura: isso combina mesmo com ela, é uma coadjuvante. João participa do debate de sexta à noite: vai ficar vazio, todo mundo bebendo nos bares. Meu Deus, Jorge está no horário nobre! Só porque ganhou o prêmio da tartaruga no ano passado? É um absurdo! E se esquece de que ganhou o mesmo prêmio no ano anterior, motivo pelo qual foi convidado para o evento.
Prossegue na digestão da lista. O estômago arde, a boca resseca, o fígado desapareceu. Andréa vai falar no sábado? Só porque vendeu 10 mil exemplares daquele livrinho de memórias disfarçadas? Leitor sério não se interessa por isso. Onde vamos parar? E ainda tem o Sandro, o Rui e o Chico. O Chico? Quem é esse tal de Chico? Alguém me diz quem é o Chico, por favor!!!
Você se desespera. Dá um soco na tela do computador, bate com a testa no teclado. Outros ilustres desconhecidos aparecem como convidados de honra. Nunca ouviu nem ouvirá falar neles. São comerciais, escrevem fácil, agradam o público. Vendilhões do templo, não sabem nada de literatura.
Para você, a literatura é experimentação, é linguagem, é invenção. A história não tem a menor importância. Quem se importa com isso é leitor barato, sem erudição. Você sabe que a literatura é a única arte em que ainda permanece essa divisão entre erudito e popular. Em todas as outras há misturas, fronteiras híbridas. Melhor assim: mantém nosso feudo.
A linguagem acessível não é literatura. Contar uma história não é literatura. Só o que você faz é literatura. Mesmo que seja chato, hermético e besta. Não importa. Você escreve um livro e pergunta: tá vendo como sou genial? Tá vendo aquela passagem? Entendeu a minha sacada? Fui eu que fiz!
A história é só um detalhe. Seu nome na capa é o que importa. Mesmo assim, estranha que suas tiragens não passem dos 3.000 exemplares. Você faz como os outros, não é diferente. Segue a cartilha acadêmica, tem amigos na imprensa, frequenta as festinhas. Por que só você ficou de fora?
É o efeito Flip. A feira literária projeta os escritores, faz aumentar as vendas, cativa o público, chama a atenção dos editores. Vinte mil pessoas passam pela cidade. Eventos assim mostram que a literatura não pode ser um clube de comadres. A participação do público e o interesse pelos escritores avalizam o texto como forma de expressão com potencial para atingir a sociedade num horizonte maior, sem se limitar a uma elite. Mas você não vai se sujeitar a essa falsa democracia. Ainda bem que não foi convidado.
* Felipe Pena é jornalista, doutor em literatura pela PUC, professor da UFF e romancista
