Um teste na crise internacional
Editorial, Jornal do Brasil
RIO - O Brasil entrou oficialmente em recessão, segundo os dados do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados ontem pelo IBGE: a economia encolheu 0,8% no primeiro trimestre deste ano em relação aos três meses imediatamente anteriores, e 1,8% sobre igual período de 2008. O resultado confirma a recessão técnica enfrentada pelo país, uma vez que, no último trimestre do ano passado, já caíra 3,6%.
Somente à primeira vista, no entanto, os números radiografados pelo IBGE compõem um cenário de desolação. Grosso modo, eles não são bons, mas o resultado acabou sendo bem melhor do que esperavam até mesmo os analistas mais otimistas. Muitos aguardavam uma redução de 1% na comparação aos três meses anteriores e uma queda entre 2% e 3,4% frente a igual trimestre de 2008. Circulou entre especialistas o temor de que o resultado poderia ser similar ao que se viu no fim do ano passado. O receio não se cumpriu, apesar de confirmada a recessão. Menos mal.
Eufórico, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já voltou a falar em descolamento da crise uma declaração apressada, embora compreensível diante dos números menos alarmistas. A fórmula consagrada para detectar uma recessão é simples: dois trimestres consecutivos de crescimento negativo. Mas não há unanimidade entre economistas e restam dúvidas sobre se essa é a melhor forma para definir a retração econômica. Ademais, os números são claros, mas chegam com certo atraso.
Do resultado divulgado ontem extraem-se lições relevantes. Boas e ruins. Em primeiro lugar, torna praticamente inevitável o encolhimento da economia brasileira neste ano. Segundo, o consumo das famílias, que representa consideráveis 60% da economia, voltou a crescer um sinal importante de retomada da vitalidade. O dado preocupante deu-se no investimento, no qual houve queda nas duas bases de comparação: frente ao último trimestre (12,6%) e contra igual período do ano passado (14%). Esses números põem em dúvida a sustentabilidade da recuperação em curso. Como se sabe, sem investimentos fortes, crescem as dúvidas sobre o futuro imediato. (São inquietantes ainda os números do comércio internacional, que desabou no período).
Os números mostram, entretanto, que o país tem se saído melhor do que vários outros emergentes no cenário da mais grave crise global desde os anos 30. Pode não mostrar a resistência chinesa, mas exibe um desempenho mais consistente do que o revelado na Rússia, no México, na Turquia e em alguns países do Leste Europeu. O FMI projeta uma queda de 1,3% para o PIB brasileiro este ano, resultado bem pior do que a previsão para a China (6,5%) e a Índia (4,5%). Mas é muito superior aos fracassos estimados para russos (-6%), turcos (-5,1%), mexicanos (-3,7%), Hungria (-3,3%) e Venezuela (-2,2%), todos países cadastrados na pasta dos emergentes.
Apesar do pessimismo de alguns setores com o impacto dos solavancos internacionais, o Brasil exibe atributos notáveis: reservas internacionais na casa dos US$ 200 bilhões, um déficit em conta corrente moderado, resultados fiscais positivos e um sistema financeiro robusto. Tais condições comprovam que o Brasil conseguiu passar com razoável tranquilidade pelo rigoroso teste imposto pela turbulência global. Com uma vantagem essencial: a possibilidade de adoção de medidas fiscais e monetárias anticíclicas o oposto do que ocorreu em crises anteriores.
