Sinais dos tempos

Por

Siro Darlan *, Jornal do Brasil

RIO - Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso chão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, roubam-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arrancam-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada . (Maiakovki)

Diariamente, ao ligarmos o canal de TV, ouvimos uma canção melodiosa e persuasiva em idioma inglês que nossa juventude domina com maestria e repete sua letra assimilando sua mensagem que reproduz em seus atos e comportamentos. A canção dos Rolling Stones tem como título Sympathy for the devil. Parece mais um rock alegre, e é, mas é preciso prestar atenção em sua mensagem para entender a intenção de seus produtores.

O rock sedutor convida: Por gentileza me permita me apresentar. Sou um homem de fortuna e requinte. Estou por aí já faz alguns anos, roubei as almas e a fé de muitos homens . E entre um plim plim e outro seguem em sua saga seduzindo a juventude a praticar o sexo irresponsável e precoce, a usar bebida e outras drogas lícitas ou não, a praticar violência em todas as suas formas e, sobretudo, a destruir os valores familiares. O Big Brother ensina como a sedução e a invasão da privacidade deve ser estimulada com cenas picantes de sexo explícito ou implícito narrado pela voz vibrante de um comentarista persuasivo.

Dado o recado, nas manhãs seguintes o resultado já se encontra estampado na roleta noticiosa que gera os lucros de uma máquina de comunicação que se alimenta e retroalimenta ensinando como se faz o mal para que nunca faltem manchetes para o dia seguinte. Estupros, violência contra crianças e idosos, gravidez precoce, venda de drogas, prisões e corrupção ensinadas com maestria pelas novelas das seis, das sete, das oito e às vezes das 22h são imediatamente retratadas na vida real dos noticiários matutinos e repetidos durante todo o dia, até que os novos capítulos renovem o estoque.

Tudo isso ao embalo dos Rolling Stones que continuam embalando as noites dos brasileiros de todos os rincões: Eu estava por perto quando Jesus Cristo teve seu momento de dúvida e dor. Fiz muita questão que Pilatos lavasse suas mãos e selasse seu destino . E logo entra o galã fazendo apologia do uso das mais diversas drogas até ser afastado da novela por não dar mais conta dos vários anos fazendo carreiras e cheirando todas para tratar de problemas de saúde . Ora, se tantos formadores de opinião fumam e cheiram a ponto de promoverem passeatas, como podem aparecer nas mesmas telas a reclamar dos traficantes que só existem em razão de seus habituais fregueses e consumidores endinheirados? Quem pensam que somos? Homer Simpson, talvez.

Parece que tem alguém por trás disso. E os Rolling Stones continuam embalando as noites. Entre um plim plim e outro, reafirmam: Um prazer em lhe conhecer. Espero que advinhem o meu nome, mas o que lhes intriga é a natureza do meu jogo . É mesmo intrigante que, após estimularem tanto o comércio das drogas, desejem dar visibilidade ao muro da segregação ameaçando isolar os pobres em guetos murados como forma de atribuir-lhes a responsabilidade pelo crescimento do império do crime financiado, segundo denunciou o delegado Helio Luz, pelo brilho do pó que iluminava Ipanema, Leblon e adjacências, e pelos barões do capital do comércio de drogas que certamente não ficarão cercados pelos muros que darão visibilidade a apartheid social alimentado pelo preconceito.

Finalmente, ele se identifica: Assim como todo cana é um criminoso e todos os pecadores Santos. Como cara é coroa, basta me chamar de Lúcifer, pois estou precisando de alguma restrição . Ora, até ele acredita que está precisando de alguma restrição, mas vai falar disso para alguns editores e donos de empresas de comunicação, que logo irão alegar a liberdade de imprensa e chamarão qualquer tipo de restrição de censura.

Mas ele está se espalhando, e até no Congresso Nacional, onde tem outro Demo (DEM-GO) que levantou a bandeira da redução da responsabilidade penal. Esse Demo entende que nosso sistema penitenciário está fazendo muito bem à sociedade, além de ser barato e eficiente e ter poucos habitantes nas casas de banimento, e apregoa a necessidade de aumentar o número dos excluídos que não tiveram acesso às políticas públicas e que estão por aí a demonstrar a inoperância das políticas públicas negligenciadas pelo administrador público que assume o cargo prometendo cumprir a Constituição da República, mas logo se esquecem e, enquanto defendem seus privilégios, desejam aumentar a população carcerária.

Não é por simples acaso que numa época em que dirigentes com grandes responsabilidades sociais se perdem em atos de mesquinhos autoritarismos para determinar a retirada dos símbolos religiosos dos tribunais e outros voltam à idade média com ideias segregacionistas como a separação de comunidades por muros uma letra como essa é escolhida para embalar uma programação que deveria ser informativa, educativa e construtora de valores da família e cultura brasileiras, mas opta por promover a violência e a criminalidade, para depois apontar com cinismo soluções antirrepublicanas e promotoras de injustiças sociais e preconceitos.

* Siro Darlan é membro da Associação Juízes para a Democracia e

do Conselho Estadual de Defesa

da Criança e do Adolescente