Muita beleza e pouco policiamento no Parque do Flamengo
Cecília Beatriz da Veiga Soares*, JB Online
RIO - Em junho de 2008, ao meio-dia, eu e 12 alunos fomos atacados por criminosos
Ministro curso de paisagismo há muitos anos, pela Associação de Amigos do Jardim Botânico, da qual sou diretora.
Sempre fez parte do programa do curso uma aula no Parque do Flamengo, considerardo fundamental para conhecer e admirar a obra de Roberto Burle Marx.
Esse belo parque urbano, seu planejamento, a vegetação, as mais diversas espécies arbóreas nativas do Brasil, outras trazidas por ele de vários países, algumas excepcionalmente belas, como as paineiras-vermelhas (Bombax malabaricum), que se despem de suas folhas durante o inverno e se cobrem com um manto vermelho-sangue; as grandes esponjas rosa-shocking conhecidas como pincel-de-barba (Pseudo-bombax ellypticum); as escultóricas pique-de-gazela (Acacia seyal); e centenas de outras. Além das formas, tonalidades de verdes, há sempre florações nos vários meses do ano.
Apenas em poucas linhas não se pode descrever toda a beleza desse parque. É imprescindível visitá-lo várias vezes ao ano.
No entanto, fiquei privada, junto com meus alunos, de continuar usufruindo deste parque que sempre apreciei.
Parque do Flamengo, nunca mais!
No dia 19 de junho de 2008, ao meio-dia, eu e 12 alunos fomos atacados por um bando de cinco criminosos jovens e armados com revólver e facas fugiram com máquinas digitais, celulares, mochilas e dinheiro.
Todas as vezes que íamos ao parque, os guardas e policiais nos alertavam para que nos mantivéssemos sempre juntos devido aos freqüentes assaltos.
Sempre me preocupei em seguir a orientação dos guardas.
Naquele dia, estávamos agrupados numa área com palmeiras, próxima ao Museu de Arte Moderna, quando eu explicava o histórico da última grande palmeira sobrevivente, a talipot (Corypha umbraculifera), quando os assaltantes surgiram do bosque, armados. Um bandido puxou com força a minha bolsa, e acabou me arrastando pelo chão.
Apenas duas pessoas registraram queixa na nona delegacia do Catete. Inutilmente, como sempre.
Pouco antes do assalto, encontramos uma turista que tinha acabado de ser roubada. As pessoas não levam mais máquinas fotográficas, pois sabem que ficarão sem elas.
Revoltada, telefonei para os jornais.
Alunos escreveram uma carta endereçada à diretoria da Associação de Amigos do Jardim Botânico, da qual faço parte, com a exigência de que a aula do Parque do Flamengo fosse abolida do programa dos próximos cursos, por não oferecer segurança aos alunos. Teríamos que contratar seguranças.
Passei a levá-los ao Instituto Moreira Salles.
Nas comemorações dos 100 anos de Roberto Burle Marx, é uma imensa tristeza e frustração.
Na semana seguinte a esse assalto, publicaram num dos jornais do Rio uma reportagem exaltando as maravilhas do Parque e sua segurança. Para enganar quem? Escrevi ao órgão contestando, mas logicamente não obtive resposta.
*Paisagista e escritora
