2009 Ano Internacional da Astronomia

Por

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão * , Jornal do Brasil

RIO - Em 1609, independentes um do outro, dois sábios, Kepler e Galileu, revolucionaram as concepções astronômicas e cosmológicas. Em Praga, Kepler publicou a sua Astronomia nova, uma obra volumosa dividida em cinco grandes partes (ou livros) que compreendem 330 páginas. Nesta obra, as órbitas dos planetas são definidas como elipses em que o Sol ocupa um dos focos e onde o raio vetor cobre áreas iguais em tempos iguais. A descoberta dessas duas leis por Kepler foi o resultado de vários anos de pesquisa sobre as observações de Marte deixadas por seu mestre Tycho Brahe que realizou as observações do céu a olho nu com o maior grau de precisão. A leitura do livro de Kepler é difícil. Se bem que a narração de como as leis foram deduzidas atrai e prende lentamente a atenção do leitor. Seu autor, com 38 anos, já havia publicado, 10 anos antes, a obra Mistério cosmográfico (1597), quando tomou abertamente a posição a favor do heliocentrismo de Copérnico.

No mesmo ano, em Pádua, Galileu construiu sua própria luneta, voltando-a para o céu, começando uma série de observações que o conduziriam a descoberta imprevisível na época: estrelas invisíveis à vista desarmada surgiam; apontando para a Via Láctea, Galileu descobriu que era um formigueiro de estrelas; dirigindo a luneta para o planeta Vênus, descobriu que ela apresentava fases com a Lua; ao orientar sua luneta para Júpiter, descobriu quatro luas que giravam ao redor do planeta como se este fosse um sistema planetário em miniatura. Surgiu um cosmos totalmente desconhecido até então. Em março de 1610, Galileu publicou o primeiro relato de suas descobertas no Mensageiro das estrelas, um pequeno livro de 56 páginas de leitura muito fácil e de impacto imediato: cerca de 500 exemplares são imediatamente vendidos, em toda a Europa. Um novo universo tinha sido descoberto.

Com 45 anos, esta foi a primeira obra de Galileu. Antes havia redigido um pequeno manual destinado a explicar o uso de um compasso que tinha aperfeiçoado. Após essas descobertas, passou a defender as idéias de Copérnico segundo as quais a Terra girava ao redor do Sol. Aliás, esta foi a sua primeira tomada de posição pública em favor de Copérnico. Sua ligação ao heliocentrismo não havia sido expressa, antes dessa data, senão de maneira confidencial, em especial numa carta a Kepler, em 1597.

Se por um lado, a obra de Kepler se deve à precisão dos instrumentos especialmente concebidos por Tycho Brahe para observação do céu, por outro lado as observações de Galileu foram fundamentadas na utilização de um instrumento a luneta holandesa que os seus inventores, com menos talento que o astrônomo italiano, não tiveram a idéia de dirigir para céu. De início, eles não haviam construído suas lunetas para uso que Galileu lhes deu. Aliás, se o tivessem feito, não acreditariam nas imagens que viam ou provavelmente não tivessem capacidade para interpretá-las.

Em 2009 comemoram-se 400 anos desses dois fatos; daí a origem do Ano Internacional da Astronomia. Sua abertura se deu no dia 15 de janeiro, na Unesco, em Paris.

* astrônomo