Tráfico liberado sob nariz da polícia
Agência JB
RIO - Os banheiros da Passarela do Samba têm mil e uma utilidades. São um dos locais preferidos pelos consumidores de cocaína: em menos de um minuto, desembrulha-se o papelote e, com apoio de uma superfície plana, em uma ou duas aspiradas não há mais flagrante. Nos camarotes, os responsáveis pela limpeza costumam fazer vista grossa, por ordem de quem pagou uma fortuna ou foi convidado para ter direito a uma vista privilegiada do desfile. Nos das frisas e cadeiras, é preciso que alguém fique de olho nos seguranças ou policiais à paisana. Nos que servem as arquibancadas, o espaço é menor e mais democrático, o que exige mais rapidez do consumidor. Em nenhum deles, há policiais de prontidão para, pelo menos, inibir o consumo.
- Fumar maconha no Sambódromo é abusar da sorte - avisa um folião, credenciado pela Liesa. - Cocaína não deixa rastro. Maconha, não. O aroma dedura.
Preocupado em ser flagrado por um dos 150 PMs de serviço no Sambódromo, um folião preferiu queimar o cigarro de maconha num dos acessos do Viaduto São Sebastião e voltar para assistir ao espetáculo. Fez isso no intervalo entre a Estácio de Sá e o Império Serrano em companhia de mais dois amigos.
- É que a gente não cheira, senão a gente ia nos banheiros químicos - diz um deles. - Chato é se o bagulho cair no chão.
Do outro lado do Viaduto São Sebastião, na Cidade Nova, os credenciados preferem comprar cocaína e levar o produto para dentro do Sambódromo. Nos acessos, os seguranças contratados pela Liesa e os policiais mostram-se mais preocupados em revistar mochilas em busca de armas. Entrar com drogas na Avenida, como disse um consumidor, é mais fácil que desfilar em bloco de rua.
Vizinhos à Passarela do Samba, cortiços, sobrados invadidos em péssimo estado de conservação e até alguns casarões antigos abrigam bocas-de-fumo e grupos de traficantes. Enquanto na Sapucaí, as escolas de samba levam o público ao delírio, do lado de fora, cocaína e maconha são vendidos a menos de 50 metros de bloqueios policiais nas ruas da Cidade Nova.
- Aqui tem arrego (acordo com a polícia), meu irmão. Segue o teu caminho que ninguém te pára - avisa um rapaz na Rua Santa Maria.
